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AfD em 2026: crescimento da extrema direita na Alemanha e o debate sobre proibir o partido

por 5 de agosto de 2026Direitos Humanos, Poder Global0 Comentários

Em agosto de 2026, a Alternative für Deutschland (AfD, Alternativa para a Alemanha) já não é uma força marginal: lidera algumas pesquisas nacionais e pode alcançar cerca de 41% na Saxônia-Anhalt e 36% em Mecklenburg-Vorpommern nas eleições estaduais de setembro. Ao mesmo tempo, setores importantes do partido foram classificados como extremistas de direita pelos serviços de proteção constitucional, dirigentes acumularam declarações que relativizam o nazismo e um de seus nomes mais influentes foi condenado duas vezes por utilizar uma palavra de ordem da Sturmabteilung (SA), organização paramilitar do Partido Nazista. A questão alemã tornou-se, portanto, maior do que uma disputa eleitoral: até onde uma democracia deve tolerar um partido radical de direita que cresce utilizando as instituições democráticas — e quando o instrumento excepcional do Parteiverbot, a proibição judicial de um partido político, se torna juridicamente justificável?

A extrema direita deixou de estar nas margens

A AfD obteve seu melhor resultado federal em 2025 e tornou-se a principal força de oposição no Bundestag, o Parlamento Federal alemão. Em julho de 2026, uma pesquisa nacional chegou a colocá-la em 27%, contra 21% da União Democrata-Cristã/União Social-Cristã (CDU/CSU); na Saxônia-Anhalt, levantamentos chegaram a 41%, colocando de forma concreta a possibilidade de um governo estadual liderado pela extrema direita.

Classificar a AfD como extrema direita (rechtsradikal/far-right) não é apenas uma posição política deste artigo. A Reuters utiliza sistematicamente essa classificação, e serviços estaduais de proteção constitucional, como o da Saxônia-Anhalt, consideram organizações regionais do partido comprovadamente extremistas de direita. No âmbito federal, a situação jurídica é mais específica: o Bundesamt für Verfassungsschutz (BfV), Serviço Federal de Proteção da Constituição, classificou a AfD nacional como gesichert rechtsextremistisch — “comprovadamente extremista de direita” — em 2025, mas essa classificação mais grave está suspensa provisoriamente enquanto a Justiça decide o processo principal.

Em fevereiro de 2026, o Tribunal Administrativo de Colônia não declarou que a AfD não fosse extremista. Ao contrário, afirmou existir “forte suspeita” de que integrantes do partido desenvolvessem esforços contrários às garantias constitucionais, inclusive à liberdade religiosa; o tribunal considerou insuficiente, naquele estágio processual, demonstrar que tais posições pudessem ser atribuídas ao partido inteiro no grau necessário para uma classificação definitiva.

A classificação federal mais severa está, portanto, suspensa; a questão constitucional não desapareceu.

Quando a retórica encosta diretamente no passado nazista

A preocupação não se baseia apenas em posições restritivas sobre imigração. Algumas das declarações mais controversas de dirigentes da AfD estão diretamente relacionadas à memória do nazismo.

Björn Höcke, líder da AfD na Turíngia e uma das figuras mais influentes de sua ala radical, foi condenado duas vezes em 2024 por utilizar a frase:

“Alles für Deutschland.”
— “Tudo pela Alemanha.”

A expressão parece banal fora de seu contexto histórico, mas era uma palavra de ordem da Sturmabteilung (SA), organização paramilitar do Partido Nazista, e seu uso como símbolo de organização anticonstitucional é proibido na Alemanha. Em maio de 2024, Höcke recebeu multa de €13 mil; em julho, foi novamente condenado, dessa vez a 130 dias-multa, depois de iniciar a expressão diante de uma plateia e incentivar o público a completá-la.

Höcke é ex-professor de História. Em outro discurso, pediu uma “erinnerungspolitische Wende um 180 Grad”, uma “virada de 180 graus na política da memória” alemã, e chamou o Memorial aos Judeus Assassinados da Europa, em Berlim, de “Denkmal der Schande”, expressão traduzida habitualmente como “monumento da vergonha”. O historiador Jens-Christian Wagner, diretor do Memorial de Buchenwald, afirma que esse tipo de retórica interfere diretamente no trabalho de memória e contribui para a normalização de discursos extremistas.

Ainda mais explícito foi Alexander Gauland, cofundador e ex-presidente da AfD:

“Hitler und die Nazis sind nur ein Vogelschiss in über 1.000 Jahren erfolgreicher deutscher Geschichte.”
— “Hitler e os nazistas são apenas uma cagada de passarinho em mais de mil anos de história alemã bem-sucedida.”

Gauland posteriormente afirmou que a formulação havia sido politicamente imprudente e poderia ser interpretada de maneira equivocada, mas a frase permanece como um dos exemplos mais conhecidos de relativização do peso do nazismo na história alemã.

Em 2024, Maximilian Krah, então principal candidato da AfD às eleições europeias, provocou nova crise ao falar sobre a Waffen-SS, braço militar da Schutzstaffel (SS), organização central da repressão e do terror nazista:

“SS were not all criminals.”
— “Nem todos os membros da SS eram criminosos.”

A declaração teve consequências até dentro da própria extrema direita europeia. Marine Le Pen rompeu politicamente com a AfD, e o grupo Identity and Democracy, então uma bancada de partidos nacionalistas e de extrema direita no Parlamento Europeu, expulsou a delegação alemã. Krah deixou a direção partidária e interrompeu sua campanha pública.

Quando até outras forças da extrema direita europeia consideram a relação de dirigentes da AfD com o passado nazista excessivamente radical, a discussão deixa de ser uma simples divergência entre direita e esquerda.

“Remigração” e a ideia de quem realmente seria alemão

Outro ponto central para os órgãos de proteção constitucional é a definição de pertencimento nacional. A controvérsia não se limita à deportação de estrangeiros sem autorização de residência — algo já previsto no direito alemão —, mas alcança discursos nos quais pessoas naturalizadas ou alemães de origem migrante aparecem como pertencentes de maneira condicional.

A palavra “remigração” tornou-se parte explícita da linguagem partidária. A direção da AfD afirma que ela se refere principalmente à expulsão de estrangeiros sem direito de permanência e de criminosos. Porém, o termo também circula em círculos identitários da extrema direita para projetos mais amplos de redução da população de origem estrangeira, inclusive envolvendo pessoas já naturalizadas.

É aí que a discussão deixa de ser apenas sobre política migratória e passa a atingir a igualdade constitucional. Uma democracia pode discutir quantas pessoas devem imigrar ou quais critérios devem reger a permanência de estrangeiros. O problema começa quando cidadãos passam a ser tratados como mais ou menos pertencentes ao país com base em origem étnica, religião ou ancestralidade.

Escândalos que vão além da retórica

A AfD também enfrentou escândalos envolvendo integrantes e assessores ligados a suspeitas de interferência estrangeira. Em 2024, um assessor do então eurodeputado Maximilian Krah foi acusado de espionagem para a China. O episódio ocorreu em meio a outras preocupações sobre vínculos de integrantes ou ambientes próximos ao partido com Rússia e China.

Em 2026, serviços de segurança alemães também identificaram campanhas russas de desinformação dirigidas contra adversários políticos da AfD antes das eleições estaduais. As autoridades alemãs atribuíram essas operações a estruturas ligadas à Rússia; Moscou negou envolvimento. Isso não significa que a AfD tenha organizado essas campanhas, e seria incorreto afirmar isso, mas o episódio mostra como extremismo interno, política externa e segurança democrática passaram a se cruzar no debate sobre o partido.

A Alemanha pode proibir a AfD?

A resposta curta é: juridicamente, sim; politicamente e constitucionalmente, é difícil.

O artigo 21 da Lei Fundamental da República Federal da Alemanha, que funciona como a Constituição do país, permite que partidos sejam declarados inconstitucionais quando procuram prejudicar ou eliminar a ordem democrática livre. Mas somente o Bundesverfassungsgericht, o Tribunal Constitucional Federal, pode decidir pela proibição.

O pedido pode ser apresentado pelo Governo Federal, pelo Bundestag, o Parlamento Federal, ou pelo Bundesrat, o Conselho Federal que representa os estados alemães. Nenhum deles pode simplesmente extinguir um partido por decisão política.

Em janeiro de 2025, o Bundestag debateu propostas para levar a AfD ao Tribunal Constitucional. Um dos principais defensores da iniciativa, o deputado democrata-cristão Marco Wanderwitz, declarou no plenário:

“Sie sind Verfassungsfeinde, Sie sind Feinde unserer Demokratie.”
— “Vocês são inimigos da Constituição, são inimigos da nossa democracia.”

As propostas foram encaminhadas às comissões, mas nenhum processo de proibição foi formalmente iniciado naquele momento.

O precedente mais importante é a tentativa de proibir a Nationaldemokratische Partei Deutschlands (NPD, Partido Nacional-Democrático da Alemanha), partido neonazista. Em 2017, o Tribunal Constitucional concluiu que a NPD possuía objetivos anticonstitucionais, defendia uma sociedade autoritária baseada em uma concepção étnica de povo e desprezava a dignidade humana. Mesmo assim, recusou a proibição porque o partido era politicamente fraco demais para ter possibilidade realista de colocar seu projeto em prática.

O Tribunal definiu o Parteiverbot como:

“die schärfste und überdies zweischneidige Waffe des demokratischen Rechtsstaats.”
— “a arma mais severa e, além disso, de dois gumes do Estado democrático de Direito.”

É justamente nesse ponto que o caso da AfD é diferente. O argumento que impediu a proibição da NPD — sua falta de potencialidade, isto é, de capacidade real para alcançar seus objetivos — teria de ser analisado de outra forma diante de um partido que lidera pesquisas nacionais, possui grandes bancadas parlamentares e alcança cerca de 40% em alguns estados.

Isso não significa que a AfD possa ser automaticamente proibida. Seria necessário provar perante o Tribunal Constitucional que objetivos contrários à ordem democrática pertencem ao partido como organização e são perseguidos de maneira ativa e planejada.

Até agosto de 2026, o Governo Federal não havia iniciado esse processo. O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, declarou preferir derrotar a AfD politicamente por meio de “bom governo”.

Proibir para proteger: o “Nunca Mais” diante da AfD

A AfD já não é apenas um problema eleitoral, mas um teste para a democracia defensiva alemã. Dirigentes de alto escalão utilizam slogans nazistas proibidos, relativizam a SS — organização central do regime nazista — e minimizaram o peso histórico do nazismo, revelando uma proximidade preocupante com referências do regime de Hitler.

A história alemã mostra que o NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o partido de Adolf Hitler) também cresceu por meio de eleições e utilizou instituições democráticas antes de destruí-las. Por isso, esperar apenas que a AfD seja derrotada nas urnas pode ser insuficiente. Se os requisitos constitucionais forem preenchidos, proibir o partido é uma forma concreta de aplicar o princípio do “Never Again” — “Nunca Mais” — e impedir que a democracia volte a oferecer seus próprios instrumentos a forças que ameaçam destruí-la.

 

Referências

BUNDESVERFASSUNGSGERICHT. Kein Verbot der NPD wegen fehlender Anhaltspunkte für eine erfolgreiche Durchsetzung ihrer verfassungsfeindlichen Ziele. Karlsruhe, 17 jan. 2017. Disponível em:
https://www.bundesverfassungsgericht.de/SharedDocs/Pressemitteilungen/DE/2017/bvg17-004.html
Acesso em: 16 ago. 2026.

BUNDESVERFASSUNGSGERICHT. Urteil vom 17. Januar 2017 – 2 BvB 1/13. Karlsruhe, 2017. Disponível em:
https://www.bundesverfassungsgericht.de/SharedDocs/Entscheidungen/DE/2017/01/bs20170117_2bvb000113.html
Acesso em: 16 ago. 2026.

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https://www.bundestag.de/dokumente/textarchiv/2025/kw05-de-afd-1042014
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https://www.reuters.com/world/europe/german-court-grants-injunction-afd-party-suspending-extremist-classification-by-2026-02-26/
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https://www.reuters.com/world/europe/far-right-european-parliament-group-expels-germanys-afd-after-ss-remark-2024-05-23/
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https://www.tagesschau.de/inland/innenpolitik/hoecke-urteil-geldstrafe-100.html
Acesso em: 16 ago. 2026.

TAGESSCHAU. Streit um Gaulands „Vogelschiss“-Aussage. 16 fev. 2025. Disponível em:
https://www.tagesschau.de/inland/bundestagswahl/quadrell-rtl-100.html
Acesso em: 16 ago. 2026.

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