Eleição 2026: que lugar no mundo cada candidato à Presidência propõe para o Brasil?
O próximo presidente brasileiro não herdará apenas inflação, segurança pública e contas fiscais. Herdará também uma relação em crise com os Estados Unidos, uma dependência comercial relevante da China, um BRICS ampliado, disputas por minerais críticos, guerras que dividem o sistema internacional e uma América do Sul novamente tratada por Washington como espaço estratégico. Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos — os cinco nomes mais competitivos nas principais pesquisas de agosto — partem de diagnósticos muito diferentes sobre esse mundo. O voto de 2026 também decidirá quanto de autonomia, alinhamento e risco o Brasil estará disposto a aceitar.
A campanha oficial começa em 16 de agosto em um ambiente excepcionalmente internacionalizado. O governo Donald Trump impôs novas tarifas sobre produtos brasileiros; Brasília acionou a Lei da Reciprocidade e pediu consultas diplomáticas; autoridades norte-americanas passaram a comentar diretamente instituições e disputas políticas brasileiras; e Lula chegou a dizer que Trump tinha o direito de preferir um candidato, mas deveria “ficar fora” da eleição brasileira.
A crise comercial não ficou fora da campanha. Flávio Bolsonaro viajou a Washington e tentou convencer a administração Trump a adiar tarifas para depois das eleições. Lula respondeu acusando a família Bolsonaro de buscar interferência externa. Ronaldo Caiado classificou como “inadmissível” que outro país colocasse em dúvida a lisura das eleições brasileiras. O episódio mostra como, em 2026, política externa deixou de ser uma agenda distante e entrou diretamente na disputa pelo Planalto.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada em 14 de agosto mostra Lula com 38% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 31%. Caiado e Renan Santos aparecem com 4% cada; Romeu Zema, com 2%. Em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio, o resultado de 43% a 40% configura empate técnico dentro da margem de erro. A CNT/MDA, divulgada três dias antes, também colocou Lula e Flávio muito à frente dos demais, embora com diferença maior.
Este artigo se concentra nesses cinco candidatos porque são os mais presentes nas principais pesquisas nacionais. As posições podem ser refinadas durante a campanha e, sobretudo para Caiado, Zema e Renan, ainda há áreas de política externa pouco detalhadas em documentos programáticos públicos.
O dilema central: alinhamento ou multi-alinhamento?
A política externa brasileira tradicionalmente tenta preservar algum grau de autonomia diante das grandes potências. Tullo Vigevani e Gabriel Cepaluni definiram a estratégia dos primeiros governos Lula como “autonomia pela diversificação”: aumentar a margem de ação do Brasil mediante relações com diferentes parceiros, em vez de depender de um único centro de poder.
Quase vinte anos depois, Oliver Stuenkel descreve uma lógica semelhante como multi-alignment: o Brasil procura manter relações simultâneas com Washington, Pequim, Europa e Sul Global, embora a rivalidade entre EUA e China torne esse equilíbrio cada vez mais difícil.
A eleição de 2026 coloca essa tradição em disputa. O ponto não é simplesmente “ser pró-EUA” ou “pró-China”. A questão é quanto alinhamento político o Brasil aceita em troca de vantagens econômicas, militares ou diplomáticas — e quanto custo está disposto a pagar para preservar autonomia.
Lula: multipolaridade, BRICS e autonomia — com riscos de percepção

Luiz Inácio Lula da Silva — PT
Partido: Partido dos Trabalhadores (PT)
Nascimento: 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, Pernambuco
Profissão: metalúrgico, sindicalista e político
Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em uma família pobre do interior de Pernambuco e migrou ainda criança para São Paulo. Trabalhou como metalúrgico no ABC paulista e ganhou projeção nacional como dirigente sindical durante as grandes greves do final da ditadura militar. Foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, em 1980.
Foi deputado federal constituinte e disputou a Presidência pela primeira vez em 1989. Depois de derrotas em 1989, 1994 e 1998, venceu as eleições presidenciais de 2002 e 2006. Voltou ao Palácio do Planalto após vencer Jair Bolsonaro em 2022. Sua trajetória é associada principalmente a programas sociais, combate à fome, valorização do salário mínimo, expansão universitária e fortalecimento da diplomacia Sul-Sul.
Família: filho de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo. Tem cinco filhos. Foi casado com Marisa Letícia até a morte dela, em 2017, e desde 2022 é casado com Rosângela da Silva, conhecida como Janja.
Polêmicas
A maior controvérsia de sua carreira está relacionada à Operação Lava Jato. Lula foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro e chegou a ficar preso entre 2018 e 2019. Entretanto, em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações porque considerou que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência jurídica para julgar os processos. As decisões que haviam condenado Lula, portanto, deixaram de produzir efeitos jurídicos.
Seu primeiro período presidencial também foi marcado pelos escândalos do Mensalão e posteriormente pelo Petrolão, envolvendo dirigentes do PT e partidos aliados. Lula não foi condenado no processo do Mensalão, mas os casos marcaram profundamente a imagem de seus governos.
Na política externa, Lula é frequentemente criticado por relações próximas com governos como Venezuela, Cuba e Nicarágua e por declarações sobre conflitos internacionais. Seus apoiadores, por outro lado, apresentam essa postura como parte de uma estratégia de autonomia diplomática brasileira e fortalecimento do Sul Global.
Citações
“A fome não é um problema só do Brasil.”
“O que está em jogo é a democracia deste país.”
“Quando a gente governa, tem que governar para todos, mas olhar especialmente para quem mais precisa.”
A política externa de Lula é a mais previsível porque já está em execução. Seu governo defende multilateralismo, BRICS, integração sul-americana, relações Sul-Sul e uma ordem internacional mais multipolar, sem romper relações com Estados Unidos ou União Europeia.
Um estudo publicado em 2026 no Bulletin of Latin American Research, de Tiago Soares Nogara, identifica soberania, multipolaridade, integração regional e solidariedade Sul-Sul como elementos estruturantes da tradição de política externa associada aos governos do PT. A formulação acadêmica clássica de Vigevani e Cepaluni ajuda a explicar o mecanismo: diversificar parceiros aumenta a capacidade de dizer “não” a qualquer um deles.
Na prática, a China é central. Em julho, Xi Jinping declarou apoio ao Brasil na rejeição a “interferência externa”, enquanto Lula anunciou intenção de avançar negociações entre China e Mercosul e ampliar cooperação em inteligência artificial, satélites, processamento de minerais críticos e fertilizantes. O governo também insiste que parceria com Pequim não deve significar dependência exclusiva e busca acordos com Índia, Europa, Canadá e outros mercados.
Essa estratégia tem base econômica. A China é, de longe, o maior destino das exportações brasileiras; os Estados Unidos continuam essenciais como fonte de investimento, tecnologia, serviços e mercado industrial, mas não substituem a demanda chinesa por commodities em escala semelhante.
Uma reeleição de Lula significaria, portanto, continuidade de uma política de multi-alinhamento: BRICS fortes, relação econômica estreita com a China, Mercosul ativo, defesa de reforma das instituições multilaterais e tentativa de manter diálogo com Washington mesmo em ambiente hostil.
Há, contudo, fragilidades. A autonomia pode ser percebida por Washington como oposição, especialmente sob um governo Trump que trata a América Latina em termos de competição estratégica com a China. Além disso, algumas declarações brasileiras sobre Ucrânia e Gaza já foram criticadas por aparentar assimetria ou por comprometer a imagem do Brasil como mediador equidistante. Um estudo de 2026 sobre o discurso de Lula na guerra russo-ucraniana mostra justamente a tensão entre a ambição de mediação e a forma como o conflito é enquadrado pelo presidente.
O contraponto é que a estratégia de mediação ainda produz resultados: em junho de 2026, um assessor de Zelensky afirmou que a Ucrânia aceitou uma proposta de Lula para retomar esforços diplomáticos com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.
Se Lula vencer, o mais provável é:
- continuidade do BRICS como instrumento de poder e reforma da ordem internacional;
- aprofundamento da relação com China sem ruptura com EUA e Europa;
- maior ênfase em Mercosul, Sul Global e cooperação Sul-Sul;
- continuidade do reconhecimento da Palestina e crítica mais dura ao governo Netanyahu;
- tentativa de usar clima, Amazônia, minerais críticos e alimentos como ativos diplomáticos;
- defesa da autonomia estratégica, mesmo com risco de novas tensões com Washington.
Flávio Bolsonaro: eixo Trump–Netanyahu, mas com limites econômicos impostos pela China
Flávio Bolsonaro — PL
Partido: Partido Liberal (PL)
Nascimento: 30 de abril de 1981, no Rio de Janeiro
Profissão: advogado, empresário e político
Flávio Nantes Bolsonaro é o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Formado em Direito, iniciou sua carreira política ainda jovem e foi eleito deputado estadual do Rio de Janeiro em 2002. Permaneceu na Assembleia Legislativa por quatro mandatos e foi eleito senador em 2018 com mais de 4 milhões de votos.
Sua atuação parlamentar concentrou-se especialmente em segurança pública, administração penitenciária e defesa civil. Politicamente, representa a continuidade do movimento conservador e de direita estruturado em torno de Jair Bolsonaro.
Família: é filho de Jair Bolsonaro e Rogéria Nantes Braga e irmão de Carlos e Eduardo Bolsonaro, além dos meios-irmãos Jair Renan e Laura. É casado com Fernanda Bolsonaro e tem duas filhas.
Polêmicas
A principal controvérsia envolvendo Flávio Bolsonaro é o chamado caso das “rachadinhas”, relacionado ao período em que era deputado estadual no Rio de Janeiro. O Ministério Público investigou suspeitas de que funcionários de seu gabinete devolviam parte dos salários, tendo Fabrício Queiroz, ex-assessor e amigo da família Bolsonaro, como personagem central. Flávio sempre negou participação em qualquer esquema e afirmou que a investigação tinha motivação política.
Também houve controvérsia sobre funcionários de seu antigo gabinete que possuíam relações familiares com pessoas apontadas pelas autoridades como integrantes de milícias do Rio de Janeiro. Flávio negou qualquer relação com atividades criminosas.
A proximidade política com o pai constitui ao mesmo tempo sua maior força eleitoral e um de seus principais problemas políticos. Sua candidatura é associada diretamente ao legado de Jair Bolsonaro, que foi condenado pelo STF em 2025 por participação em uma tentativa de golpe de Estado após a eleição de 2022.
Citações
“O Brasil vai vencer.”
“O Brasil precisa urgentemente de mudanças, de um governo mais jovem, moderno e com mais energia.”
“Assumo a missão de ser candidato a presidente da República.”
Flávio Bolsonaro apresenta o projeto mais claramente alinhado aos atuais governos de direita dos Estados Unidos e de Israel. Benjamin Netanyahu participou por vídeo da convenção que oficializou sua candidatura. Flávio prometeu restabelecer pleno alinhamento com Israel e transferir a embaixada brasileira para Jerusalém.
Em relação aos Estados Unidos, sua proximidade com Donald Trump é parte central de sua identidade internacional. Em julho, Flávio viajou a Washington e pediu que as tarifas norte-americanas fossem adiadas por 180 dias, o que as empurraria para depois da eleição. A Reuters descreveu a iniciativa como tentativa de reduzir o custo eleitoral das tarifas e de se dissociar da percepção de que sua aproximação com Washington havia contribuído para a pressão sobre o Brasil.
Em entrevista à CNN, Flávio afirmou que sua política externa seria “pragmática” e que conversaria tanto com Estados Unidos quanto com China, Israel e países do Oriente Médio.
Analistas ouvidos pela CNN durante a crise tarifária observaram que a proximidade de Flávio com Trump, que poderia funcionar como ativo eleitoral, se transformou parcialmente em vulnerabilidade quando Washington passou a impor custos concretos ao Brasil. O professor Maurício Moura, da George Washington University, avaliou que a narrativa de acesso privilegiado ao governo americano foi fragilizada pelo tarifaço.
Se Flávio vencer, o mais provável é:
- aproximação política intensa com a administração Trump;
- mudança brusca na política para Israel e Palestina, com provável transferência da embaixada para Jerusalém;
- menor protagonismo político dos BRICS, ainda que uma saída do bloco seja economicamente e diplomaticamente improvável;
- maior identificação com Milei e governos conservadores da região;
- tentativa de reaproximar o Brasil do eixo ocidental em segurança, crime organizado e comércio;
- tensão permanente entre alinhamento ideológico aos EUA e necessidade econômica de manter a China.
O ponto decisivo seria saber se “pragmatismo” significaria realmente autonomia para negociar com todos ou apenas preservação dos vínculos econômicos chineses dentro de uma política politicamente alinhada a Washington.
Ronaldo Caiado: conservadorismo com soberania e diplomacia comercial

Ronaldo Caiado — PSD
Partido: Partido Social Democrático (PSD)
Nascimento: 25 de setembro de 1949, em Anápolis, Goiás
Profissão: médico, ortopedista, produtor rural e político
Ronaldo Ramos Caiado pertence a uma tradicional família de proprietários rurais de Goiás. Formou-se em Medicina e especializou-se em ortopedia e cirurgia da coluna.
Sua entrada na política nacional ocorreu principalmente através da defesa dos interesses dos grandes produtores rurais. Nos anos 1980, foi uma das principais lideranças da União Democrática Ruralista (UDR).
Caiado disputou a Presidência pela primeira vez em 1989. Posteriormente exerceu cinco mandatos como deputado federal, foi senador e governou Goiás entre 2019 e março de 2026. Em 2026 deixou o União Brasil e filiou-se ao PSD, partido que posteriormente o escolheu para disputar a Presidência.
Família: é casado com Gracinha Caiado. Teve quatro filhos; Ronaldo Caiado Filho morreu em 2022.
Polêmicas
Sua trajetória é historicamente ligada à UDR, organização fundada durante os conflitos sobre reforma agrária na década de 1980. Caiado tornou-se uma das figuras mais conhecidas da oposição ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e às propostas de reforma agrária mais ampla.
Essa atuação produziu conflitos duradouros com movimentos camponeses e organizações de esquerda, que acusaram historicamente a UDR de estimular confrontos e violência no campo. Caiado rejeita essas acusações e apresenta sua atuação como defesa da propriedade privada e dos produtores rurais.
Outra controvérsia envolve sua relação com Jair Bolsonaro. Embora tenha apoiado Bolsonaro em 2018, Caiado rompeu publicamente com o então presidente durante a pandemia de Covid-19, especialmente por divergências relacionadas às medidas sanitárias. Posteriormente voltou a se aproximar de segmentos do eleitorado bolsonarista.
Em sua campanha de 2026 também gerou críticas ao relativizar a ditadura militar brasileira, referindo-se ao período como marcado por “restrições”, formulação criticada por minimizar violações de direitos humanos cometidas pelo regime.
Citações
“Segurança pública não se faz com discurso, se faz com autoridade.”
“Não adianta querer passar o primeiro turno se não tem condições depois de debater o segundo turno.”
“O cidadão precisa voltar a ter o direito de andar na rua sem medo.”
Ronaldo Caiado tenta construir um lugar distinto dentro da direita. Critica Lula e o Itamaraty, mas também evita apresentar Trump, Netanyahu ou Milei como padrinhos de sua candidatura.
Quando questionado sobre o apoio de líderes estrangeiros a Flávio Bolsonaro, respondeu: “Eu não preciso de muleta de nenhum país de fora”. Disse ainda que pretende reformar o Itamaraty para recuperar “a força da diplomacia brasileira”.
Caiado também foi explícito ao defender a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro. Em julho, classificou como “inadmissível” que os Estados Unidos ou outro país colocassem em dúvida a lisura das urnas, embora tenha se declarado favorável à presença de observadores internacionais.
Essa posição sugere um conservadorismo internacional menos personalista: relações melhores com Washington, mas preservação formal da soberania e das instituições brasileiras.
Sua trajetória como representante de Goiás e do agronegócio também aponta para uma política externa orientada a comércio, abertura de mercados, segurança alimentar, fertilizantes e recursos estratégicos. O Estado que governou buscou cooperação internacional em áreas de mineração e terras raras, tema que deve ganhar importância crescente diante da disputa EUA–China por cadeias de tecnologia e defesa.
Caiado e Zema responsabilizaram a diplomacia de Lula por parte da crise tarifária com Washington. Ainda assim, Caiado criticou a estratégia de pedir a Trump que adiasse medidas até depois das eleições, reforçando a ideia de que não pretende tornar a relação bilateral uma extensão da política de uma família ou partido.
Se Caiado vencer, o mais provável é:
- melhora política das relações com Washington sem alinhamento pessoal tão intenso quanto o de Flávio;
- diplomacia fortemente orientada a agronegócio, comércio e atração de investimentos;
- tentativa de reduzir o “conteúdo ideológico” por ele percebido no Itamaraty;
- preservação de vínculos com China por necessidade comercial;
- maior ênfase em soberania institucional e menos disposição para aceitar interferência eleitoral estrangeira.
O principal ponto ainda aberto é sua posição sobre BRICS, Palestina, Ucrânia e integração sul-americana: até agora, sua campanha apresentou mais claramente uma crítica ao método diplomático de Lula do que uma estratégia externa completa.
Romeu Zema: reocidentalização e o problema da “dependência perigosa” da China

Romeu Zema — Novo
Partido: Partido Novo (NOVO)
Nascimento: 28 de outubro de 1964, em Araxá, Minas Gerais
Profissão: administrador e empresário
Romeu Zema Neto nasceu em uma família tradicional de empresários de Minas Gerais. Formou-se em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas e desenvolveu sua carreira no Grupo Zema, conglomerado familiar que atua nos setores de varejo, veículos, combustíveis e serviços financeiros.
Entrou relativamente tarde na política. Foi eleito governador de Minas Gerais pelo Partido Novo em 2018 e reeleito no primeiro turno em 2022. Em julho de 2026, o Novo oficializou sua candidatura à Presidência.
Sua plataforma política é baseada principalmente em liberalismo econômico, privatizações, redução de gastos públicos, menor intervenção estatal e defesa da iniciativa privada.
Família: é filho de Ricardo Zema e Maria Lúcia Zema. É divorciado e tem dois filhos, Catharina e Domenico.
Polêmicas
Uma de suas maiores controvérsias ocorreu em 2023, quando defendeu maior articulação política dos estados do Sul e Sudeste para contrabalançar o peso político do Norte e Nordeste. As declarações foram interpretadas por adversários como uma tentativa de criar divisão regional e chegaram a ser classificadas como preconceituosas. Zema afirmou posteriormente que não pretendia promover hostilidade entre regiões.
Seu governo também enfrentou forte oposição sindical em razão das propostas de privatização de empresas estaduais e da adesão de Minas Gerais ao Regime de Recuperação Fiscal.
Outra controvérsia recorrente é sua defesa de uma visão bastante empresarial da administração pública. Para seus apoiadores, essa experiência representa eficiência administrativa; para críticos, Zema tende a tratar políticas sociais e serviços públicos excessivamente pela lógica do mercado.
Sua proximidade política com Jair Bolsonaro também oscilou. Zema apoiou Bolsonaro no segundo turno de 2022, mas posteriormente buscou apresentar-se nacionalmente como uma direita liberal diferente do bolsonarismo.
Citações
“Eu não estou aqui para ganhar eleição, estou aqui para consertar o Estado.”
“Primeiro eu quero privatizar tudo.”
“O Estado tem que servir ao cidadão, e não o cidadão servir ao Estado.”
Romeu Zema formula com mais clareza que Caiado a ideia de uma correção de rumo para o Ocidente.
Em junho, afirmou que o Brasil estava “cada vez mais próximo da China e distante do Ocidente” e classificou a concentração das exportações brasileiras no mercado chinês como uma “dependência perigosa”. Comparou o problema à gestão de uma empresa que evita depender excessivamente de um único cliente.
O diagnóstico contém uma preocupação de risco. Dependência comercial concentrada reduz margem de negociação. Se Pequim diminuir compras de soja, minério ou petróleo, determinados setores brasileiros sentirão rapidamente o impacto.
Mas existe um segundo lado. A China não se tornou o maior parceiro do Brasil apenas por decisão ideológica do PT. Houve mudança estrutural na economia mundial e enorme demanda chinesa por commodities que o Brasil produz de maneira competitiva. Diversificação é possível; substituição rápida, não.
Por isso, a política externa de Zema provavelmente enfrentaria uma contradição semelhante à de Flávio: a preferência política pelo Ocidente não elimina a geografia econômica do Brasil.
Zema também atribuiu as tensões tarifárias à perda de credibilidade do governo Lula junto aos EUA e criticou o Itamaraty por aproximação com países “antiamericanos”. Seu discurso sugere uma política externa mais liberal economicamente, mais próxima de Washington e Europa e menos interessada em utilizar o BRICS como plataforma de contestação da ordem ocidental.
Se Zema vencer, o mais provável é:
- tentativa de reaproximação política com Estados Unidos e Europa;
- estratégia explícita de diversificação para reduzir a concentração comercial na China;
- menor peso político dos BRICS e maior peso de comércio, investimento e abertura econômica;
- diplomacia mais próxima da lógica empresarial e de cadeias de valor;
- pressão para que o Itamaraty adote linguagem menos associada ao Sul Global e ao anti-hegemonismo.
O teste seria econômico: quais mercados estariam dispostos a absorver, em escala comparável, produtos hoje destinados à China? Sem resposta concreta, “reduzir dependência” pode permanecer mais fácil como slogan do que como estratégia.
Renan Santos: realismo de força, crítica ao BRICS e barganha com os Estados Unidos

Renan Santos — Missão
Partido: Partido Missão (MISSÃO)
Nascimento: 14 de fevereiro de 1984, em São Paulo
Profissão: empresário e ativista político
Renan Antônio Ferreira dos Santos tornou-se conhecido nacionalmente como um dos fundadores e principais estrategistas do Movimento Brasil Livre (MBL).
Iniciou o curso de Direito na Universidade de São Paulo, mas não concluiu a graduação. Ganhou projeção durante as manifestações que defenderam o impeachment da presidente Dilma Rousseff entre 2015 e 2016.
Posteriormente participou da transformação do MBL em um projeto político-partidário próprio. O Partido Missão foi registrado pelo Tribunal Superior Eleitoral em novembro de 2025, com Renan Santos como presidente nacional.
Ao contrário dos demais candidatos, Renan nunca ocupou anteriormente um grande cargo eletivo nacional ou executivo.
Polêmicas
Grande parte das controvérsias em torno de Renan está associada ao MBL e ao estilo agressivo de comunicação política utilizado pelo movimento. Adversários acusam o grupo de utilizar confrontos, provocações, ataques pessoais e estratégias digitais destinadas a gerar viralização.
Em 2026, Renan provocou forte reação ao defender políticas de segurança inspiradas no presidente salvadorenho Nayib Bukele. Ao discutir operações policiais, afirmou que matar alguém “se necessário” faria parte do jogo, declaração que gerou questionamentos sobre direitos humanos e uso excessivo da força.
Na mesma entrevista, classificou debates sobre transfobia e racismo como formas de “pânico moral”, o que gerou críticas de movimentos sociais e organizações progressistas.
O MBL também foi alvo de controvérsias anteriores relacionadas ao comportamento de alguns de seus integrantes e à linguagem utilizada contra jornalistas e adversários. Uma reportagem do Intercept Brasil, por exemplo, documentou ataques verbais feitos por Renan e outros dirigentes contra jornalistas críticos ao movimento.
Citações
“O Brasil, em grande parte, se ilude com a farsa bolsonarista.”
“Matar alguém, se necessário, faz parte do jogo.”
“Quero um dia que digam que o Bukele é o Renan Santos brasileiro.”
Renan Santos apresenta a visão mais explicitamente realista — no sentido clássico das Relações Internacionais — entre os cinco candidatos.
Material de sua campanha descreve a ordem internacional como um “mundo baseado em força”. Renan critica o eixo político construído pelo PT em torno de BRICS, China, Irã e Venezuela e afirma que Brasil e Estados Unidos poderiam funcionar como uma “força estabilizadora”.
Mas ele também critica aquilo que considera submissão do bolsonarismo a Trump. Durante a crise tarifária, afirmou que a lógica “America First” significa que Washington buscará maximizar seus próprios interesses e defendeu usar terras raras brasileiras como instrumento de barganha: se os EUA taxarem o Brasil, poderiam perder acesso aos minerais e ficar mais dependentes da China.
Essa formulação é importante porque o distancia de um alinhamento automático. Renan é mais favorável aos EUA do que Lula, mas sua retórica é transacional: alianças são instrumentos de poder, e não relações de lealdade.
O programa internacional do Missão, contudo, levanta questões sobre defesa. Kim Kataguiri, dirigente central do partido e articulador da campanha, defendeu em agosto que o Brasil desenvolvesse uma bomba atômica e afirmou que “quem não tem bomba atômica não tem soberania no mundo”.
Essa não é, até agora, uma proposta formalmente assumida por Renan Santos. Não deve ser atribuída a ele como posição presidencial sem confirmação. Mas é politicamente relevante porque parte de um dirigente influente de seu partido e colide frontalmente com a Constituição brasileira, que restringe atividades nucleares a fins pacíficos, com o Tratado de Não Proliferação Nuclear e com o regime de salvaguardas Brasil–Argentina.
A visão de mundo do candidato também aparece em sua admiração pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, sobretudo na área de segurança. Em política internacional, isso sugere maior abertura a governos de direita que priorizem ordem, segurança e soberania sobre agendas liberais de direitos humanos.
Se Renan vencer, o mais provável é:
- aproximação estratégica com Estados Unidos, mas em termos de barganha e reciprocidade;
- redução do peso político do BRICS e crítica à aproximação com China, Irã e governos autoritários associados à esquerda latino-americana;
- utilização de minerais críticos como instrumento explícito de poder nacional;
- política externa mais securitária e realista, com maior ênfase em defesa e crime organizado transnacional;
- debate mais agressivo sobre capacidades militares brasileiras.
A principal dúvida é institucional: até que ponto a retórica de força seria compatibilizada com compromissos internacionais e com a tradição diplomática brasileira de solução pacífica de controvérsias.
China: ninguém pode simplesmente escolher não depender dela
Todos os candidatos enfrentarão uma realidade que slogans eleitorais não alteram: a China é central para a economia brasileira.
Isso não significa que o país esteja condenado a uma relação de dependência. Pelo contrário, diversificar mercados, processamento industrial, tecnologia e cadeias de valor é uma necessidade estratégica. O problema é confundir diversificação com ruptura.
Um estudo publicado em 2026 pelo LEPEB/UFF, ao comparar as relações do Brasil com EUA e China em 2025, concluiu que a relação com Pequim apresentou maior densidade de acordos e saldo comercial mais favorável ao Brasil naquele período. Isso não torna a China um parceiro “melhor” em todos os sentidos; mostra apenas que os custos de uma deterioração econômica precisam ser medidos empiricamente.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam fundamentais em investimento, tecnologia, serviços, finanças, defesa e ciência. Frank Mora, ex-embaixador norte-americano na OEA, e Nick Zimmerman, ex-diretor para Brasil e Cone Sul no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, argumentaram recentemente que a prosperidade norte-americana também depende de uma relação pragmática e produtiva com países das Américas — e criticaram políticas coercitivas que podem empurrar parceiros para a Ásia.
Para o Brasil, a estratégia mais vantajosa pode não estar em escolher uma potência, mas em fazer com que ambas tenham interesse em oferecer melhores condições.
BRICS: bloco de autonomia ou risco de associação política?
A disputa sobre os BRICS também será central.
Lula os vê como plataforma de reforma da governança global e ampliação da voz do Sul Global. Flávio, Zema e Renan demonstram mais desconfiança sobre o papel político do bloco; Caiado ainda não apresentou uma doutrina tão clara.
O debate não pode ser reduzido a “democracias versus ditaduras”. O BRICS é heterogêneo e inclui democracias, monarquias e regimes autoritários. Para o Brasil, sua utilidade histórica esteve menos em compartilhar valores domésticos e mais em melhorar a cooperação internacional.
O Congressional Research Service dos EUA observa que o Brasil buscou usar o BRICS para aumentar sua influência global, mas também resistiu a movimentos que pudessem transformar o grupo em bloco abertamente antiocidental ou dominado por Pequim.
Israel e Palestina: uma das rupturas mais claras entre Lula e Flávio
Nesse tema, a eleição pode produzir uma mudança imediata de política externa.
Lula mantém reconhecimento da Palestina e um confronto político aberto com o governo Netanyahu em razão de Gaza. Flávio promete alinhamento com Israel e transferência da embaixada para Jerusalém.
Uma vitória de Flávio provavelmente mudaria votos brasileiros em organismos internacionais, a linguagem sobre Gaza e Palestina e o relacionamento com governos árabes. Poderia aproximar o Brasil da direita israelense e de setores evangélicos cristãos sionistas, mas também gerar custos diplomáticos com países do Oriente Médio e com segmentos do Sul Global.
Caiado, Zema e Renan ainda precisam detalhar melhor suas posições nesse eixo para que uma comparação responsável seja possível.
Minerais raros: o novo petróleo da política externa brasileira
Talvez o tema mais subestimado da eleição seja o controle sobre terras raras e outros minerais críticos.
Estados Unidos e China disputam cadeias de suprimento essenciais para baterias, semicondutores, defesa e transição energética. O Brasil possui reservas importantes e já negocia com diferentes parceiros.
Lula tenta usar esses recursos dentro de uma estratégia de diversificação: acordos com China, Índia e outros países, combinados à defesa de processamento doméstico e agregação de valor. Renan fala explicitamente em usar terras raras como poder de barganha contra Washington. Caiado e Zema também veem minerais como ativo econômico e industrial.
A escolha relevante não é apenas “para quem vender”. É se o Brasil continuará exportando matéria-prima ou exigirá tecnologia, indústria, pesquisa e processamento local.
É aqui que política externa e desenvolvimento se encontram de forma mais concreta.
Cinco candidatos, quatro modelos de inserção internacional
As diferenças podem ser resumidas em quatro grandes modelos.
Lula da Silva: multi-alinhamento, BRICS, Sul Global e autonomia pela diversificação.
Flávio Bolsonaro: alinhamento político com Trump e Netanyahu, moderado pela necessidade econômica de manter a China.
Ronaldo Caiado: conservadorismo soberanista e diplomacia comercial, com menos dependência de alianças pessoais externas.
Romeu Zema: reocidentalização, liberalização e redução deliberada da exposição chinesa.
Renan Santos: realismo de força, parceria transacional com Washington e uso explícito de recursos estratégicos como instrumentos de barganha.
Essas categorias não são caixas perfeitas. Governos são constrangidos pelo Congresso, Itamaraty, economia, crises internacionais e pela própria burocracia. Candidatos também mudam posições depois de assumir o poder.
Mas eleições importam porque definem prioridades, linguagem e alianças.
O que a eleição realmente decide no tabuleiro global
Para uma potência como o Brasil, a pergunta relevante é: qual projeto aumenta a capacidade do país de tomar decisões próprias e transformar seus recursos em influência?
Autonomia sem capacidade econômica pode virar retórica. Alinhamento sem reciprocidade pode virar dependência. Neutralidade sem credibilidade não produz mediação. E soberania sem instituições pode se transformar apenas em nacionalismo.
O Brasil possui território continental, alimentos, energia, minerais críticos, base industrial, uma das maiores populações do mundo e relações relevantes com todos os grandes polos de poder. Essa combinação é rara.
Em uma ordem internacional cada vez mais coercitiva, não escolher automaticamente um lado também é uma escolha estratégica. Mas só funciona quando o país possui capacidade política, econômica e diplomática para sustentar essa autonomia.
Referências principais
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https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2026/resolucao-no-23-751-de-26-de-fevereiro-de-2026
UOL / GENIAL QUAEST. Quem subiu e quem caiu na nova pesquisa Quaest para presidente? 14 ago. 2026.
REUTERS. Lula’s lead over Flavio Bolsonaro narrows in Brazilian election second-round, CNT/MDA poll shows. 11 ago. 2026.
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https://www.reuters.com/world/americas/lula-says-trump-must-stay-out-brazil-elections-2026-06-17/
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