Geopolítica & Diplomacia

Carta do Irã aos americanos: entre fatos, diplomacia e a guerra de narrativas

por 5 de abril de 2026Geopolítica & Diplomacia0 Comentários

Documento de Masoud Pezeshkian expõe disputas jurídicas, informacionais e geopolíticas em um dos conflitos mais perigosos da atualidade

A publicação de uma carta aberta do presidente iraniano Masoud Pezeshkian ao povo dos Estados Unidos, em 1º de abril de 2026, marcou um momento decisivo na guerra em curso entre Irã, Estados Unidos e Israel. Mais do que um gesto simbólico, o documento deve ser compreendido como parte de uma estratégia deliberada de diplomacia pública em meio a um cenário de escalada militar, tensões energéticas globais e crescente disputa por legitimidade internacional.

Divulgada diretamente na plataforma X (antigo Twitter), a carta rapidamente ultrapassou dezenas de milhões de visualizações, inserindo-se no que analistas descrevem como uma “guerra de narrativas” — dimensão cada vez mais central nos conflitos contemporâneos. Em um ambiente em que informação, percepção e legitimidade se tornaram armas estratégicas, o texto iraniano não é apenas um posicionamento político: é um instrumento de poder.

https://x.com/drpezeshkian/status/2039418009052119190?s=20

 

Leia a carta em português - tradução livre

Em nome de Deus, o Compassivo, o Misericordioso

Ao povo dos Estados Unidos da América, e a todos aqueles que, em meio a uma enxurrada de distorções e narrativas fabricadas, continuam a buscar a verdade e aspirar a uma vida melhor:

O Irã — por este próprio nome, caráter e identidade — é uma das civilizações contínuas mais antigas da história humana. Apesar de suas vantagens históricas e geográficas em diversos momentos, o Irã nunca, em sua história moderna, escolheu o caminho da agressão, expansão, colonialismo ou dominação. Mesmo após suportar ocupação, invasão e pressão contínua de potências globais — e apesar de possuir superioridade militar sobre muitos de seus vizinhos — o Irã nunca iniciou uma guerra. Ainda assim, resistiu com firmeza e coragem àqueles que o atacaram.

O povo iraniano não nutre hostilidade contra outras nações, incluindo os povos da América, da Europa ou dos países vizinhos. Mesmo diante de repetidas intervenções e pressões estrangeiras ao longo de sua história orgulhosa, os iranianos sempre fizeram uma clara distinção entre governos e os povos que eles governam. Este é um princípio profundamente enraizado na cultura iraniana e na consciência coletiva — não uma posição política temporária.

Por essa razão, retratar o Irã como uma ameaça não é compatível nem com a realidade histórica nem com os fatos observáveis do presente. Tal percepção é produto de interesses políticos e econômicos dos poderosos — a necessidade de fabricar um inimigo para justificar pressão, manter a supremacia militar, sustentar a indústria armamentista e controlar mercados estratégicos. Em tal ambiente, se uma ameaça não existe, ela é inventada.

Dentro desse mesmo contexto, os Estados Unidos concentraram o maior número de suas forças, bases e capacidades militares ao redor do Irã — um país que, ao menos desde a fundação dos Estados Unidos, nunca iniciou uma guerra. As recentes agressões americanas lançadas a partir dessas bases demonstraram o quão ameaçadora essa presença militar realmente é. Naturalmente, nenhum país confrontado com tais condições abriria mão de fortalecer suas capacidades defensivas. O que o Irã fez — e continua a fazer — é uma resposta medida, fundamentada no legítimo direito à autodefesa, e de forma alguma o início de uma guerra ou agressão.

As relações entre o Irã e os Estados Unidos nem sempre foram hostis, e os primeiros contatos entre os povos iraniano e americano não foram marcados por hostilidade ou golpes de Estado — até a intervenção ilegal americana de 1953. O ponto de virada, no entanto, foi essa intervenção, voltada a impedir a nacionalização dos próprios recursos do Irã. Esse golpe interrompeu o processo democrático iraniano, restaurou a ditadura e semeou profunda desconfiança entre os iranianos em relação às políticas dos Estados Unidos. Essa desconfiança se aprofundou ainda mais com o apoio dos EUA ao regime do Xá, seu respaldo a Saddam Hussein durante a guerra imposta da década de 1980, a imposição das sanções mais longas e abrangentes da história moderna e, por fim, agressões militares não provocadas — duas vezes, em meio a negociações — contra o Irã.

Ainda assim, todas essas pressões não conseguiram enfraquecer o Irã. Pelo contrário, o país se fortaleceu em diversas áreas: as taxas de alfabetização aumentaram significativamente; o ensino superior expandiu-se de forma expressiva; avanços importantes foram alcançados em tecnologia moderna; os serviços de saúde melhoraram; e a infraestrutura se desenvolveu em um ritmo e escala incomparáveis ao passado. Essas são realidades mensuráveis e observáveis, independentes de narrativas fabricadas.

Ao mesmo tempo, o impacto destrutivo e desumano das sanções, da guerra e da agressão sobre a vida do resiliente povo iraniano não deve ser subestimado. A continuidade da agressão militar e os bombardeios recentes afetam profundamente a vida, as atitudes e as perspectivas das pessoas. Isso reflete uma verdade humana fundamental: quando a guerra causa danos irreparáveis a vidas, lares, cidades e futuros, as pessoas não permanecem indiferentes àqueles responsáveis.

Isso levanta uma questão fundamental: quais interesses do povo americano estão realmente sendo atendidos por essa guerra? Existia alguma ameaça objetiva por parte do Irã que justificasse tal comportamento? O massacre de crianças inocentes, a destruição de instalações farmacêuticas de tratamento de câncer ou a ostentação de “bombardear um país de volta à Idade da Pedra” servem a algum propósito além de prejudicar ainda mais a posição global dos Estados Unidos?

O Irã buscou negociações, alcançou um acordo e cumpriu todos os seus compromissos. A decisão de se retirar desse acordo, escalar para o confronto e lançar atos de agressão em meio às negociações foram escolhas destrutivas feitas pelo governo dos Estados Unidos — escolhas que serviram às ilusões de um agressor estrangeiro.

Atacar a infraestrutura vital do Irã — incluindo instalações energéticas e industriais — atinge diretamente o povo iraniano. Além de constituir crime de guerra, tais ações têm consequências que vão muito além das fronteiras do Irã. Elas geram instabilidade, aumentam os custos humanos e econômicos e perpetuam ciclos de tensão, plantando sementes de ressentimento que perdurarão por anos. Isso não é demonstração de força; é sinal de desorientação estratégica e incapacidade de alcançar uma solução sustentável.

Não seria também o caso de que os Estados Unidos entraram nessa agressão como um representante de Israel, influenciados e manipulados por esse regime? Não é verdade que Israel, ao fabricar uma ameaça iraniana, busca desviar a atenção global de suas ações contra os palestinos? Não é evidente que Israel agora pretende lutar contra o Irã até o último soldado americano e até o último dólar do contribuinte americano?

Convido vocês a olhar além da máquina de desinformação — parte integrante dessa agressão — e, em vez disso, conversar com aqueles que já visitaram o Irã. Observem os muitos imigrantes iranianos bem-sucedidos — formados no Irã — que hoje ensinam e conduzem pesquisas nas universidades mais prestigiadas do mundo, ou contribuem para as empresas de tecnologia mais avançadas do Ocidente. Essas realidades correspondem às distorções que lhes são apresentadas sobre o Irã e seu povo?

Hoje, o mundo está em uma encruzilhada. Continuar pelo caminho do confronto é mais custoso e inútil do que nunca. A escolha entre confronto e engajamento é real e terá consequências profundas; seu resultado moldará o futuro das próximas gerações.

Ao longo de milênios de história orgulhosa, o Irã superou muitos agressores. Tudo o que restou deles são nomes manchados na história, enquanto o Irã permanece — resiliente, digno e orgulhoso.

Leia a versão original da carta, transcrita em inglês

In the name of God, the Compassionate, the Merciful

To the people of the United States of America, and to all those who, amid a flood of distortions and manufactured narratives, continue to seek the truth and aspire to a better life:

Iran—by this very name, character, and identity—is one of the oldest continuous civilizations in human history. Despite its historical and geographical advantages at various times, Iran has never, in its modern history, chosen the path of aggression, expansion, colonialism, or domination. Even after enduring occupation, invasion, and sustained pressure from global powers—and despite possessing military superiority over many of its neighbors—Iran has never initiated a war. Yet it has resolutely and bravely repelled those who have attacked it. 

The Iranian people harbor no enmity toward other nations, including the people of America, Europe, or neighboring countries. Even in the face of repeated foreign interventions and pressures throughout their proud history, Iranians have consistently drawn a clear distinction between governments and the peoples they govern. This is a deeply rooted principle in Iranian culture and collective consciousness—not a temporary political stance.

For this reason, portraying Iran as a threat is neither consistent with historical reality nor with present-day observable facts. Such a perception is the product of political and economic whims of the powerful—the need to manufacture an enemy in order to justify pressure, maintain military dominance, sustain the arms industry, and control strategic markets. In such an environment, if a threat does not exist, it is invented.

Within this same framework, the United States has concentrated the largest number of its forces, bases, and military capabilities around Iran—a country that, at least since the founding of the United States, has never initiated a war. Recent American aggressions launched from these very bases have demonstrated how threatening such a military presence truly is. Naturally, no country confronted with such conditions would forgo strengthening its defensive capabilities. What Iran has done—and continues to do—is a measured response grounded in legitimate self-defense, and by no means an initiation of war or aggression.

Relations between Iran and the United States were not originally hostile, and early interactions between the Iranian and American people were not marred with hostility or coup d’état—until the illegal American 1953 intervention. The turning point, however, was the intervention aimed at preventing the nationalization of Iran’s own resources. That coup disrupted Iran’s democratic process, reinstated dictatorship, and sowed deep distrust among Iranians toward U.S. policies. This distrust deepened further with America’s support for the Shah’s regime, its backing of Saddam Hussein during the imposed war of the 1980s, the imposition of the longest and most comprehensive sanctions in modern history, and ultimately, unprovoked military aggression—twice, in the midst of negotiations—against Iran.

Yet all these pressures have failed to weaken Iran. On the contrary, the country has grown stronger in many areas: literacy rates have risen significantly; higher education has expanded dramatically; major advances have been achieved in modern technology; healthcare services have improved; and infrastructure has developed at a pace and scale incomparable to the past. These are measurable, observable realities that stand independent of fabricated narratives.

At the same time, the destructive and inhumane impact of sanctions, war, and aggression on the lives of the resilient Iranian people must not be underestimated. The continuation of military aggression and recent bombings profoundly affect people’s lives, attitudes, and perspectives. This reflects a fundamental human truth: when war inflicts irreparable harm on lives, homes, cities, and futures, people will not remain indifferent toward those responsible.

This raises a fundamental question: exactly which of the American people’s interests are truly being served by this war? Was there any objective threat from Iran to justify such behavior? Does the massacre of innocent children, the destruction of cancer-treatment pharmaceutical facilities, or boasting about bombing a country “back to the stone ages” serve any purpose other than further damaging the United States’ global standing?

Iran pursued negotiations, reached an agreement, and fulfilled all its commitments. The decision to withdraw from that agreement, escalate toward confrontation, and launch acts of aggression in the midst of negotiations were destructive choices made by the U.S. government—choices that served the delusions of a foreign aggressor.

Attacking Iran’s vital infrastructure—including energy and industrial facilities—directly targets the Iranian people. Beyond constituting a war crime, such actions carry consequences that extend far beyond Iran’s borders. They generate instability, increase human and economic costs, and perpetuate cycles of tension, planting seeds of resentment that will endure for years. This is not a demonstration of strength; it is a sign of strategic bewilderment and an inability to achieve a sustainable solution.

Is it not also the case that America has entered this aggression as a proxy for Israel, influenced and manipulated by that regime? Is it not true that Israel, by manufacturing an Iranian threat, seeks to divert global attention away from its actions toward the Palestinians? Is it not evident that Israel now aims to fight Iran to the last American soldier and the last American taxpayer dollar?

I invite you to look beyond the machinery of misinformation—an integral part of this aggression—and instead speak with those who have visited Iran. Observe the many accomplished Iranian immigrants—educated in Iran—who now teach and conduct research at the world’s most prestigious universities, or contribute to the most advanced technology firms in the West. Do these realities align with the distortions you are being told about Iran and its people?

Today, the world stands at a crossroads. Continuing along the path of confrontation is more costly and futile than ever before. The choice between confrontation and engagement is both real and consequential; its outcome will shape the future for generations to come.

Throughout its millennia of proud history, Iran has outlasted many aggressors. All that remains of them are tarnished names in history, while Iran endures—resilient, dignified, and proud.


Fact-check e contexto: entre fatos históricos e construção narrativa

A carta combina elementos verificáveis, interpretações políticas e afirmações controversas — padrão típico de comunicações estatais em contextos de conflito.

Um dos pontos mais sólidos é a referência ao golpe de 1953. Documentos desclassificados confirmam o papel da CIA na derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, em um episódio amplamente reconhecido como interferência externa motivada pela nacionalização do petróleo iraniano.

Participantes do Golpe de 1953

https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB435/

Esse evento permanece central na memória política iraniana e ajuda a explicar a desconfiança estrutural em relação aos Estados Unidos — elemento recorrente na carta.

Outro ponto historicamente sustentado é o apoio americano ao Iraque durante a guerra Irã-Iraque nos anos 1980. Arquivos mostram que Washington forneceu apoio indireto a Bagdá, inclusive inteligência estratégica, mesmo diante do uso de armas químicas pelo regime iraquiano.

https://nsarchive.gwu.edu/events/iran-iraq-war-1980-1988

A carta também menciona o acordo nuclear de 2015 (JCPOA), um dos pilares da disputa atual. A Agência Internacional de Energia Atômica confirmou repetidamente que o Irã cumpriu os termos do acordo até a retirada unilateral dos Estados Unidos em 2018. Após essa retirada, o Irã passou a reduzir gradualmente sua conformidade, o que torna a afirmação da carta parcialmente correta, mas não completa.

https://www.armscontrol.org/blog/2018-06-08/iaea-report-confirms-irans-compliance-jcpoa

No que diz respeito às sanções, o Irã de fato está entre os países mais sancionados do mundo, com décadas de restrições econômicas severas. No entanto, a formulação de que se trata das “mais abrangentes da história moderna” deve ser interpretada como retórica política, não como dado consensual.

https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/BRIE/2025/777928/EPRS_BRI%282025%29777928_EN.pdf

A afirmação de que o Irã “nunca iniciou uma guerra” é mais controversa. Embora seja defendida por autoridades iranianas no contexto contemporâneo — especialmente em relação a guerras interestatais recentes — ela não é historicamente absoluta e ignora dinâmicas indiretas de conflito, como o uso de proxies regionais.

https://www.britannica.com/place/Herat-Afghanistan

Por outro lado, a carta encontra respaldo significativo ao mencionar vítimas civis. A ONU condenou o ataque a uma escola de meninas em Minab, em fevereiro de 2026, que resultou na morte de mais de 160 estudantes — um dos episódios mais graves da escalada recente.

https://www.ohchr.org/en/press-releases/2026/03/un-experts-strongly-condemn-deadly-missile-strike-girls-school-iran-call

Além disso, especialistas em direito internacional, como o Professor Allen S. Weiner, questionaram a base jurídica da ação militar dos Estados Unidos, apontando ausência de evidência clara de ameaça iminente — requisito central para justificar o uso da força sob o artigo 51 da Carta da ONU.

Allen S. Weiner, professor sênior de direito e diretor do Programa de Direito Internacional e Comparado de Stanford e do Centro de Stanford para Conflito Internacional e Negociação

Do ponto de vista do direito internacional, o meu julgamento é que o ataque foi claramente ilegal. Nos termos da Carta das Nações Unidas, os Estados estão proibidos de usar a força nas relações internacionais, exceto em uma de duas circunstâncias: (1) quando o Estado atua em legítima defesa, caso tenha sofrido um “ataque armado” por parte de seu adversário; ou (2) quando o Conselho de Segurança da ONU autoriza o uso da força. O Conselho de Segurança, evidentemente, não autorizou o uso da força contra o Irã. No que diz respeito à legítima defesa, o Irã não realizou um ataque armado contra os Estados Unidos.

No que se refere ao direito de legítima defesa, há estudiosos do direito internacional — e eu me incluo nesse grupo — que acreditam que os Estados podem exercer esse direito não apenas após sofrerem um ataque armado, mas também quando enfrentam uma ameaça iminente de ataque. Isso é referido pelos juristas internacionais como “legítima defesa antecipatória”, e o presidente Trump aludiu a esse conceito ao afirmar que os ataques dos EUA contra o Irã tinham como objetivo “eliminar ameaças iminentes do regime iraniano”. O problema com essa posição é que, mesmo que exista um direito à legítima defesa antecipatória, a condição prévia é rigorosa; ela exige uma ameaça iminente de um ataque armado por parte do adversário. A ideia de que o Irã representa uma ameaça geral à segurança dos interesses dos EUA não constitui uma ameaça de ataque iminente. Tampouco a possibilidade de que o Irã possa, em algum momento no futuro, adquirir armas nucleares ou mísseis intercontinentais capazes de alcançar o território dos EUA equivale a uma ameaça de ataque iminente.

https://law.stanford.edu/2026/03/03/stanfords-allen-weiner-on-the-constitutional-and-international-law-questions-raised-by-the-iran-attack/

A questão nuclear: risco real ou construção estratégica?

Um dos pontos mais relevantes — e ausente de forma direta na carta — é a questão nuclear.

Até 2026, não há confirmação pública de que o Irã possua armas nucleares operacionais. O país mantém capacidade técnica avançada e níveis elevados de enriquecimento de urânio, mas especialistas divergem sobre sua capacidade imediata de produzir armamento nuclear funcional.

O debate, portanto, não é apenas técnico, mas político.

Para os Estados Unidos e Israel, o programa nuclear iraniano representa uma ameaça estratégica. Para o Irã, trata-se de soberania tecnológica e capacidade de dissuasão — especialmente após décadas de sanções e intervenções externas.

A carta evita esse tema de forma direta, o que é significativo: ao não enfatizar o nuclear, ela tenta deslocar o debate para legalidade, soberania e vítimas civis — campos nos quais o Irã possui maior vantagem narrativa.

Existem relatórios oficiais sobre o programa nuclear do Irã, principalmente elaborados pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), que monitora o cumprimento do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Esses relatórios — como os Verification and Monitoring Reports submetidos ao Conselho de Governadores — analisam o enriquecimento de urânio, inspeções e transparência do programa iraniano. Nos últimos anos, a agência tem apontado limitações no acesso e lacunas de verificação, sem, contudo, confirmar a existência de um programa ativo de armas nucleares.

Do ponto de vista jurídico, a Organização das Nações Unidas, por meio da Carta da ONU (artigos 2(4) e 51), estabelece que o uso da força é proibido, salvo em legítima defesa contra ataque armado ou com autorização do Conselho de Segurança. Assim, nem os Estados Unidos nem Israel têm base legal para usar força contra o Irã apenas com fundamento em suspeitas ou desenvolvimento potencial de armas nucleares. Mesmo sob a doutrina controversa de “legítima defesa antecipatória”, o direito internacional exige uma ameaça iminente clara — o que não se confunde com riscos futuros ou capacidades potenciais. Portanto, sendo o Irã um Estado soberano, qualquer ação coercitiva fora desses parâmetros viola os princípios de soberania e não intervenção.

A diplomacia do Irã: comunicação direta e estratégia de influência

A carta representa um exemplo claro de diplomacia pública contemporânea.

Ao falar diretamente ao povo americano, o Irã rejeita canais diplomáticos tradicionais e tenta influenciar o debate interno dos Estados Unidos. Essa estratégia reflete uma mudança estrutural: Estados não falam mais apenas entre si — falam diretamente às sociedades.

O texto constrói uma separação deliberada entre governo e população, ao mesmo tempo em que questiona os interesses da guerra em termos que ressoam com o discurso político doméstico americano — especialmente o próprio slogan “America First”.

Essa abordagem não é acidental. Ela indica compreensão da dinâmica política interna dos Estados Unidos.

Análise da carta: construção retórica e disputa de legitimidade

A carta é estruturada de forma estratégica.

Ela mobiliza memória histórica (1953), legalidade (autodefesa), humanitarismo (vítimas civis) e pragmatismo político (interesses americanos).

Esse conjunto cria um efeito específico: não necessariamente convencer, mas gerar dúvida.

Na teoria das relações internacionais, isso pode ser entendido como uma estratégia de erosão da legitimidade do adversário — um movimento central em conflitos assimétricos.

Análise geopolítica: poder, narrativa e limites da força

A carta revela um elemento central do conflito: a disputa por legitimidade.

Militarmente, os Estados Unidos mantêm superioridade significativa. No entanto, essa vantagem não se traduz automaticamente em vitória política.

Em 2026, há sinais de que Washington enfrenta dificuldades não apenas militares, mas estratégicas:

  • aumento da instabilidade regional
  • impacto econômico global (energia, inflação)
  • críticas jurídicas internacionais
  • divisão interna nos Estados Unidos

O Estreito de Ormuz tornou-se ponto crítico, com risco direto para o fluxo global de petróleo.

Trump, retórica e desgaste político

A atuação de Donald Trump é central para entender essa dinâmica.

Sua política externa, baseada em “peace through strength”, combina força militar com retórica agressiva. No entanto, essa abordagem tem produzido efeitos ambíguos.

Por um lado, demonstra capacidade de ação. Por outro, gera críticas internas e externas.

Parte do próprio movimento MAGA tem demonstrado desconforto com a escalada militar — especialmente diante da contradição com promessas anteriores de redução do envolvimento em guerras externas.

Além disso, a retórica de confronto pode ter efeitos contraproducentes, fortalecendo a posição narrativa do Irã como vítima de agressão.

Conclusão: narrativa como campo de batalha

A carta do presidente iraniano não é apenas um documento político. Ela é parte de uma estratégia mais ampla: transformar percepção em poder.

Do ponto de vista factual, mistura elementos corretos, incompletos e retóricos.

Do ponto de vista diplomático, é eficaz.

E do ponto de vista geopolítico, revela uma transformação central:

No sistema internacional contemporâneo, vencer militarmente não é suficiente — é preciso vencer a narrativa.

A tentativa do Irã de evitar uma escalada mais ampla, ao menos no discurso, contrasta com a dinâmica crescente de confronto. Ao mesmo tempo, a ausência de uma justificativa jurídica clara por parte dos Estados Unidos enfraquece sua posição internacional.

Isso não significa que o Irã esteja isento de críticas ou responsabilidades. Mas indica que, neste momento, a disputa não é apenas sobre território ou poder militar — é sobre legitimidade.

E, nesse campo, a carta mostra que a guerra está longe de ser decidida.

 

 

 

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