Friedrich Merz chegou à Chancelaria prometendo liderança, competitividade e uma Alemanha capaz de voltar a falar a linguagem do poder. Pouco mais de um ano depois, sua rejeição é elevada e sua comunicação tornou-se parte do problema. Ao longo dos últimos anos, Merz chamou filhos de famílias migrantes de “pequenos paxás”, sugeriu que requerentes de asilo ocupavam consultórios para “refazer os dentes”, associou migração a um “problema no Stadtbild”, questionou afastamentos por doença e afirmou que os alemães precisam trabalhar mais. Fora do país, criou atrito com o Brasil e, na segurança, conduz uma Alemanha mais militarizada e mais comprometida com a Ucrânia e com Israel. O resultado é um chanceler que projeta hard power, mas encontra dificuldade crescente em produzir confiança e soft power.
Friedrich Merz nasceu em 1955, é advogado e integra o partido CDU desde a juventude. Foi eurodeputado, deputado federal e líder parlamentar conservador no início dos anos 2000. Depois de perder espaço para Angela Merkel, deixou o centro da política e construiu carreira no setor privado, inclusive em conselhos empresariais e como presidente do conselho de supervisão da BlackRock Alemanha.
Retornou ao Bundestag em 2021, assumiu a CDU em 2022 e tornou-se chanceler em maio de 2025.
Sua identidade política sempre esteve associada a disciplina fiscal, mercado, Leistung — desempenho — e uma abordagem mais dura sobre migração.
Biografia oficial:
https://www.bundeskanzler.de/bk-de/kanzleramt/bundeskanzler-seit-1949/biografie-friedrich-merz
“Kleine Paschas”: uma frase que não desapareceu
Em 2023, depois de distúrbios de Ano-Novo envolvendo jovens em Berlim, Merz falou de problemas em escolas e utilizou a expressão “kleine Paschas” — “pequenos paxás” para descrever meninos de famílias migrantes que, segundo ele, desrespeitariam professoras e fariam seus pais serem chamados à escola para confrontá-las.
A expressão foi criticada por generalizar comportamentos a partir de origem cultural e por associar meninos muçulmanos a uma imagem orientalista de autoridade masculina.
Merz posteriormente defendeu a declaração. Em entrevista posterior, ao ser confrontado com essa e outras falas, disse que era “engajado” e que, como líder da oposição, tinha direito a formular pontos de maneira aguda.
“Eles vão ao médico e refazem os dentes”
Meses depois, Merz provocou outra controvérsia ao falar sobre requerentes de asilo rejeitados que permaneciam na Alemanha.
Ele afirmou:
“Die sitzen beim Arzt und lassen sich die Zähne neu machen, und die deutschen Bürger nebendran kriegen keine Termine.”
Em tradução livre: “Eles vão ao dentista e refazem os dentes, enquanto os cidadãos alemães não conseguem consulta.”
O Faktenfinder da Tagesschau verificou a afirmação e concluiu que ela não se sustentava da forma apresentada. Pessoas abrangidas pela Lei de Benefícios para Requerentes de Asilo têm acesso mais restrito a tratamento de saúde do que segurados regulares, e tratamentos odontológicos extensos não são concedidos da maneira sugerida pela frase.
A controvérsia é relevante porque mostra um padrão: Merz frequentemente escolhe imagens concretas — professoras humilhadas, consultórios ocupados, ruas deterioradas — para traduzir questões complexas de migração em experiências de ameaça cotidiana.
“Este problema no Stadtbild”
Como chanceler, o padrão continuou.
Em outubro de 2025, Merz afirmou que o governo estava corrigindo erros anteriores na migração, mas que ainda havia:
“dieses Problem im Stadtbild”
— “este problema na paisagem urbana”.
E vinculou a frase à necessidade de ampliar deportações.
Quando jornalistas perguntaram o que exatamente queria dizer, respondeu:
“Fragen Sie Ihre Kinder, fragen Sie Ihre Töchter.”
“Perguntem aos seus filhos, perguntem às suas filhas.”
A fala sugeria que mulheres jovens reconheceriam insegurança associada à presença de determinados homens nas cidades. A oposição, integrantes do SPD e organizações antirracistas acusaram Merz de estigmatizar pessoas pela aparência e origem.
Merz mais tarde reconheceu que poderia ter explicado antes o que pretendia dizer e também afirmou que a Alemanha precisa de imigração, especialmente em saúde e cuidados.
Trabalhadores: doença, horas e “work-life balance”
A mesma lógica de disciplina aparece no debate trabalhista.
Merz criticou a ideia de que a prosperidade alemã poderia ser mantida com semana de quatro dias e crescente ênfase em work-life balance.
Também questionou o número de dias de afastamento por doença e perguntou publicamente se os índices eram realmente necessários.
Uma fala de Merz que causou furor entre a população foi exigir atestado médico no primeiro dia de trabalho, o que gera desconfiança. Até o momento, o trabalhador deve apresentar um atestado no terceiro dia de afastamento.
Mas economistas e seguradoras lembraram que estatísticas de afastamento são afetadas por envelhecimento da força de trabalho, doenças crônicas, mudanças no registro eletrônico e estrutura setorial. E comparar apenas horas trabalhadas entre Alemanha e Suíça não mede produtividade por hora, participação feminina, trabalho parcial ou composição econômica.
Depois da reação negativa, Merz declarou que jamais havia dito que os alemães eram preguiçosos e admitiu:
“I know that I need to improve my communication.”
— “Eu sei que tenho que melhorar a minha comunicação”.
Brasil: “ninguém queria ficar”
A comunicação de Merz também produziu problemas diplomáticos.
Depois de participar da COP30 em Belém, ele contou em um congresso empresarial que perguntou aos jornalistas que viajaram com a delegação se alguém gostaria de permanecer no Brasil.
“Not one hand was raised. We were all glad to be back in Germany from that place.”
— “Nenhuma mão se levantou. Todos nós ficamos felizes por estar de volta à Alemanha, longe daquele lugar.”
A frase foi recebida no Brasil como arrogante e depreciativa.
Lula respondeu dizendo que Merz deveria ter conhecido melhor Belém, ido a um bar ou dançado para perceber a qualidade de vida local.
Para um chefe de governo, diplomacia também é escolha de palavras. A fala reforçou a percepção de um político pouco sensível à forma como comentários informais podem ser recebidos por parceiros do Sul Global.
Poucos dias depois, Merz voltou a brincar com o tema da comida estrangeira ao visitar uma padaria, dizendo que estar fora do país lembrava “como o pão alemão é ótimo” e relatando não ter encontrado um “pedaço de pão decente” no café da manhã em Luanda.
A frase sobre o pão, isoladamente, é banal. Somada à controvérsia do Brasil, porém, alimentou a imagem de um chanceler que transforma diferenças culturais em comparações hierárquicas desnecessárias.
Ucrânia: uma Alemanha mais militarmente comprometida
Na Ucrânia, Merz representa continuidade e aprofundamento do apoio alemão após a invasão russa de 2022.
Em abril de 2026, Alemanha e Ucrânia assinaram novos acordos de cooperação em drones e defesa. Segundo a Reuters, a Alemanha já havia fornecido cerca de 55 bilhões de euros em ajuda e reservava 11,5 bilhões adicionais no orçamento corrente.
Merz também declarou que o apoio alemão continuaria política, financeira e militarmente e não descartou contribuições futuras de forças alemãs em território de países da OTAN próximos à Ucrânia após um eventual cessar-fogo.
Aqui é importante corrigir uma simplificação: não é correto afirmar que “os alemães são contra apoiar a Ucrânia”. A opinião pública é dividida e depende do tipo de apoio.
Pesquisas anteriores mostraram maiorias favoráveis à ajuda à Ucrânia, enquanto armas de longo alcance como o Taurus enfrentaram rejeição maior. Uma pesquisa de 2025 encontrou pequena maioria favorável até a participação alemã em uma futura missão de paz, com forte oposição no leste do país.
Portanto, o conflito não é governo pró-guerra contra uma população pacifista homogênea. A disputa é sobre intensidade, risco de escalada, custo e limites da participação alemã.
Israel e Gaza: apoio histórico, pressão pública e limites da mudança alemã
No caso de Israel, a distância entre a posição tradicional do Estado alemão e parte da opinião pública tornou-se mais evidente durante a guerra em Gaza. Em junho de 2025, uma pesquisa do ARD-DeutschlandTrend mostrou que 73% dos entrevistados defendiam algum tipo de restrição às exportações alemãs de armas para Israel.
A posição de Friedrich Merz, porém, permaneceu fortemente vinculada à segurança israelense. Em junho de 2025, durante a escalada militar entre Israel e Irã, declarou:
“Das ist die Drecksarbeit, die Israel macht für uns alle”
— “Esse é o trabalho sujo que Israel está fazendo por todos nós”.
Em agosto de 2025, diante da expansão das operações em Gaza e da crise humanitária, Merz suspendeu temporariamente novas autorizações de exportação de armamentos que pudessem ser utilizados no território. Justificou a decisão afirmando:
“We cannot deliver weapons into a conflict that is now being pursued exclusively by military means”
— “Não podemos fornecer armas para um conflito que agora está sendo conduzido exclusivamente por meios militares”.
A medida, entretanto, não constituiu um embargo geral.
A restrição terminou em 24 de novembro de 2025 e as exportações voltaram a ser avaliadas caso a caso. Entre novembro de 2025 e março de 2026, Berlim autorizou cerca de €167,4 milhões em novas exportações militares para Israel. A política de Merz foi, portanto, de pressão limitada, e não de ruptura: criticou determinadas decisões do governo Netanyahu, mas manteve a Staatsräson, a cooperação militar e a relação estratégica excepcional com Israel.
Recrutamento militar: “Merz que vá para a linha de frente“
A política de defesa, porém, tem um custo político geracional.
A nova lei de serviço militar entrou em vigor em 2026. O serviço permanece inicialmente voluntário, mas todos os homens de 18 anos precisam responder a um questionário sobre aptidão e disponibilidade; a legislação cria ainda mecanismos para ativar serviço obrigatório se o número de voluntários não for suficiente e o Bundestag aprovar a medida.
O objetivo oficial é ampliar significativamente o efetivo da Bundeswehr até 2035.
Em março de 2026, milhares de estudantes participaram de greves contra a possibilidade de retorno da conscrição. Cartazes diziam:
“Merz an die Front”
— “Merz que vá para a linha de frente.”“Nie wieder Krieg”
— “Guerra nunca mais.”“Zu jung für Waffen”
— “Jovens demais para as armas.”“Die Jugend will Zukunft”
— “A juventude quer um futuro.”
O conflito aqui é menos sobre uma guerra específica e mais sobre quem assume o custo pessoal da nova política de segurança alemã.
O problema é apenas comunicação — ou também a mensagem?
Friedrich Merz já reconheceu que seu governo precisa comunicar melhor. Mas essa explicação talvez seja insuficiente. Em política, comunicação não é apenas a forma como uma mensagem é apresentada; é também o conteúdo que se escolhe repetir, os grupos que aparecem como problema e a imagem de sociedade que o governo projeta. Quando expressões como “kleine Paschas”, comentários sobre requerentes de asilo “refazendo os dentes”, o Stadtbild, afastamentos por doença, work-life balance ou observações depreciativas sobre países estrangeiros se acumulam, torna-se difícil tratá-las apenas como falhas isoladas de comunicação.
Os números indicam que Merz não conseguiu consolidar uma relação de confiança com a maioria da população. Antes da eleição federal de 2025, sua imagem já era frágil: em janeiro, apenas 25% dos entrevistados pelo ARD-DeutschlandTrend estavam satisfeitos com seu desempenho e, em fevereiro, 33% acreditavam que ele seria um bom chanceler. Após assumir o governo, houve uma recuperação inicial, com índices próximos de 40% em junho de 2025. A tendência, porém, se inverteu: em julho de 2026, apenas 13% declaravam-se satisfeitos com seu trabalho, contra 84% de insatisfeitos. Pesquisas posteriores continuaram registrando rejeição muito elevada. Isso não prova que cada declaração controversa seja responsável pela queda, mas mostra que a ideia de um simples “problema de comunicação” não explica sozinha a perda de confiança.
A questão também ultrapassa a política doméstica. A Alemanha construiu parte importante de seu soft power sobre uma imagem de moderação, multilateralismo, respeito institucional e capacidade de diálogo. Um governo que simultaneamente busca ampliar o hard power alemão — com mais gastos militares, uma Bundeswehr maior e uma indústria de defesa fortalecida — precisa cuidar também da legitimidade e da capacidade de atração do país. Comentários percebidos como condescendentes com países do Sul Global ou como estigmatizantes em relação a migrantes, trabalhadores e pessoas doentes podem trazer insatisfação ao povo alemão.
É nesse ponto que o estilo político de Merz pode transformar uma pretendida demonstração de força em fragilidade. Um chanceler pode querer uma Alemanha mais produtiva, militarmente mais preparada e internacionalmente mais influente. Mas força democrática não depende apenas de orçamento, exportações ou capacidade militar. Depende também de pertencimento, confiança e reconhecimento. Quem pretende fortalecer um país precisa convencer também migrantes, trabalhadores, jovens, pessoas doentes e grupos socialmente vulneráveis de que eles fazem parte desse projeto. Caso contrário, o problema deixa de ser apenas como o governo comunica sua política e passa a ser o que sua própria linguagem comunica sobre quem pertence à Alemanha que ele pretende construir.
Referências principais
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