Em 3 de junho de 2026, a Alemanha sofreu uma derrota diplomática que poucos em Berlim pareciam esperar. Na eleição para dois assentos não permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas no biênio 2027–2028, Portugal recebeu 134 votos, a Áustria 131 e a Alemanha apenas 104 — muito abaixo dos 127 necessários. Como o voto da Assembleia Geral é secreto, não existe uma explicação única comprovável. Mas diplomatas, especialistas e políticos alemães apontaram uma combinação incômoda: campanha tardia, excesso de confiança, perda de credibilidade no Sul Global, apoio à Ucrânia, política para Israel e Gaza e, talvez o mais simples de admitir, duas candidaturas concorrentes que fizeram diplomacia melhor.
Uma derrota que Berlim não esperava
O Conselho de Segurança possui 15 membros: cinco permanentes com poder de veto e dez eleitos por períodos de dois anos. Alemanha, Portugal e Áustria disputavam duas vagas reservadas ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados. Portugal e Áustria venceram já na primeira rodada. Foi a primeira vez que a República Federal fracassou numa candidatura desse tipo desde a reunificação, depois de seis mandatos anteriores no Conselho.
O resultado surpreendeu justamente porque a Alemanha havia se acostumado a apresentar seu peso econômico, sua contribuição financeira às Nações Unidas e sua defesa do multilateralismo como credenciais quase naturais para ocupar posições internacionais. Antes da votação, o ministro das Relações Exteriores Johann Wadephul declarava em Nova York:
“Germany can make both the Security Council and the United Nations stronger.”
— “A Alemanha pode tornar tanto o Conselho de Segurança quanto as Nações Unidas mais fortes.”
Horas depois, a realidade foi outra. Wadephul chamou o resultado de “herbe Niederlage”, uma “derrota amarga”, e reconheceu que a Alemanha estava em desvantagem desde o início porque Áustria e Portugal começaram muito antes a garantir compromissos de voto.
O chanceler Friedrich Merz reagiu de maneira mais contida:
“Wir haben uns mit Überzeugung beworben. Wir haben das Ziel nicht erreicht.”
— “Nós nos candidatamos com convicção. Não alcançamos nosso objetivo.”
Merz afirmou que a derrota não alteraria o compromisso alemão com o sistema multilateral.
Arrogância: quando o peso econômico é confundido com influência
Uma das críticas mais duras veio de dentro da própria Alemanha. Em comentário da emissora pública ARD/Tagesschau, o jornalista Georg Schwarte escreveu que Berlim havia interpretado mal a situação e talvez agido com arrogância, como se pensasse que a vaga lhe pertencia por ser um dos grandes financiadores da ONU e defensor declarado do multilateralismo.
O especialista em sistema das Nações Unidas Ronny Patz chegou a conclusão semelhante. Para ele, o problema não foi apenas uma campanha ruim, mas a falta de uma estratégia alemã coerente para a ONU. Patz escreveu:
“The campaign sounded quite arrogant at times, like Germany just expected to win.”
— “A campanha soou bastante arrogante em alguns momentos, como se a Alemanha simplesmente esperasse vencer.”
Ele acrescentou que o governo não conseguiu explicar convincentemente o que pretendia fazer no Conselho além de simplesmente estar nele, e criticou uma política multilateral que considera pouco coordenada entre diferentes ministérios. Para Patz, parte do mundo percebe também uma Alemanha seletiva na aplicação da chamada ordem internacional baseada em regras.
Essa observação é especialmente importante porque a Alemanha continua tendo enorme capacidade de influência. Dizer que o país possui “pouco soft power” seria impreciso: no Global Soft Power Index 2026, aparece em quinto lugar entre 193 Estados. O problema é a tendência. Sua pontuação caiu de 70,1 para 67,7, enquanto também recuaram as avaliações sobre influência diplomática e liderança internacional. A própria análise do índice associa parte da queda à perda de percepção de força econômica e ao período de transição após a liderança internacional mais consolidada de Angela Merkel.
A votação na ONU expôs justamente essa diferença: ter soft power não significa conseguir convertê-lo automaticamente em votos diplomáticos.
Gaza e o problema da credibilidade
Como o voto foi secreto, seria incorreto afirmar que Gaza “causou” a derrota. Mas o próprio ministro Wadephul reconheceu publicamente que a política alemã para Israel pode ter custado votos.
“The fact that Germany must always assume a special responsibility for Israel in the Middle East conflict may also have cost votes.”
— “O fato de a Alemanha assumir sempre uma responsabilidade especial por Israel no conflito do Oriente Médio também pode ter custado votos.”
Ele também citou o apoio alemão à Ucrânia e acusou a Rússia de ter feito campanha contra Berlim. Portanto, há provavelmente mais de um fator. Mas a questão de Gaza toca uma vulnerabilidade mais profunda da diplomacia alemã: a percepção de dois pesos e duas medidas na aplicação do Direito Internacional.
Essa crítica já aparecia durante o mandato de Annalena Baerbock como ministra das Relações Exteriores. Em outubro de 2024, ao defender a posição alemã sobre Israel, Baerbock afirmou no Parlamento que instalações civis poderiam perder seu status protegido quando fossem abusadas por terroristas:
“Civilian sites could lose their protected status if terrorists abuse this status.”
— “Locais civis podem perder seu status protegido se terroristas abusarem desse status.”
A formulação tornou-se controversa porque mesmo quando um bem civil passa a constituir objetivo militar, o Direito Internacional Humanitário não suspende os princípios de distinção, proporcionalidade e precaução. A percepção de seletividade aumentou porque a Alemanha utilizava uma linguagem extremamente contundente sobre violações russas na Ucrânia enquanto demonstrava maior cautela diante das ações israelenses em Gaza. O próprio artigo original já identificava essa contradição como um possível problema de credibilidade.
Marcus Schneider, em análise publicada pelo International Politics and Society, ligado à Friedrich-Ebert-Stiftung, descreveu a derrota como resultado de uma perda mais ampla de confiança e criticou aquilo que considera os “duplos padrões” da política externa alemã.
Nada disso significa que os 89 Estados que não votaram na Alemanha o tenham feito por Gaza. Não sabemos como cada país votou. Mas é significativo que o próprio chanceler, o ministro das Relações Exteriores, especialistas e analistas alemães tenham tratado credibilidade, Ucrânia, Israel e relação com o Sul Global como parte da explicação.
Annalena Baerbock e uma ironia diplomática
A cena da derrota teve ainda um elemento simbólico particular: quem anunciou oficialmente os resultados foi Annalena Baerbock, ex-ministra alemã das Relações Exteriores e então presidente da Assembleia Geral da ONU. Portugal: 134. Áustria: 131. Alemanha: 104. Wadephul, seu sucessor no Ministério das Relações Exteriores, estava sentado no plenário.
Seria injusto atribuir a derrota pessoalmente a Baerbock, apesar de suas gafes diplomáticas.
Talvez Portugal e Áustria simplesmente tenham sido melhores
Há também uma explicação menos dramática, mas provavelmente fundamental: os outros candidatos fizeram campanhas melhores.
A candidatura alemã entrou relativamente tarde numa disputa em que compromissos diplomáticos são negociados durante anos. Wadephul reconheceu que Alemanha estava “desde o início em desvantagem”. Portugal e Áustria já acumulavam promessas de voto quando a campanha alemã ganhou intensidade.
Portugal dispõe ainda de uma rede diplomática particular com países africanos de língua portuguesa, Brasil e outros países do Sul Global. A Áustria combina sua neutralidade constitucional com a presença de importantes instituições internacionais em Viena e uma imagem diplomática menos associada à condição de grande potência.
O correspondente da ARD Martin Ganslmeier apontou também uma possível preferência de Estados menores por outros países menores. Num Conselho já dominado pelas cinco potências permanentes, alguns membros da Assembleia Geral podem ter resistido à ideia de conceder outro assento a um Estado europeu economicamente muito poderoso.
O diplomata austríaco Emil Brix, ex-diretor da Academia Diplomática de Viena, resumiu essa possibilidade dizendo que aparentemente “muitos dos pequenos estão cansados da dominância dos grandes”.
Isso também importa para uma análise crítica da Alemanha: nem toda derrota precisa ser explicada pelo fracasso alemão. Portugal e Áustria tinham suas próprias qualidades diplomáticas e conquistaram mais votos.
Dinheiro não compra automaticamente confiança
A Alemanha continua sendo uma potência econômica, importante financiadora das Nações Unidas, grande doadora de ajuda ao desenvolvimento. Mas sua derrota mostra que esses recursos já não garantem deferência política.
A deputada verde Agnieszka Brugger chamou o resultado de uma derrota “constrangedora” e acusou o governo de ter feito pouco para sustentar a candidatura com “ideias modernas”.
A questão que Berlim precisa responder é menos confortável: o que a Alemanha oferece politicamente ao restante do mundo além de financiamento, posições europeias e defesa abstrata da ordem internacional?
Em uma Assembleia Geral cada vez mais marcada por países africanos, asiáticos, latino-americanos e do Oriente Médio que reivindicam maior participação na governança global, influência depende de capacidade de ouvir, negociar e demonstrar coerência. Uma potência que exige respeito ao Direito Internacional de adversários, mas é percebida como mais tolerante quando aliados são acusados de violá-lo, enfraquece justamente o recurso mais importante do soft power: credibilidade.
A derrota de 104 a 134 e 131 votos não demonstra que a Alemanha tenha deixado de ser importante. Demonstra algo mais interessante: ser importante e ser escolhido são coisas diferentes. Portugal e Áustria compreenderam melhor essa lógica nesta eleição. A Alemanha, aparentemente, não.
Referências
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