Guerra Fria da fé: como religião entrou na disputa de poder dos Estados Unidos na América Latina
Durante a Guerra Fria, a disputa entre Estados Unidos e movimentos de esquerda na América Latina não aconteceu apenas nos quartéis, partidos, sindicatos ou governos. Ela atravessou também igrejas, missões religiosas e comunidades cristãs. Documentos desclassificados da CIA mostram que Washington avaliava a Teologia da Libertação segundo seus efeitos sobre os interesses norte-americanos. Investigações da época denunciaram relações entre organizações religiosas, governos e estruturas de inteligência. No Brasil, bispos católicos chegaram a acusar a CIA de infiltrar grupos religiosos não católicos. As evidências não sustentam uma explicação simples segundo a qual Washington teria “criado” o evangelicalismo latino-americano. Sustentam, porém, uma conclusão importante: religião foi parte da disputa política e geopolítica da Guerra Fria nas Américas.
Quando a fé virou assunto de inteligência
Em abril de 1986, a Diretoria de Inteligência da CIA produziu um relatório secreto de 32 páginas intitulado Liberation Theology: Religion, Reform, and Revolution.
O documento não surgiu de uma curiosidade acadêmica.
Na própria “Scope Note”, a CIA informa que sua Diretoria de Inteligência havia patrocinado, no ano anterior, uma conferência sobre Teologia da Libertação e comunismo para examinar sua relação com a instabilidade política no chamado “Terceiro Mundo” e avaliar suas implicações para os Estados Unidos.
A agência descrevia a Teologia da Libertação como um movimento que promovia reformas socioeconômicas mediante organização política de base, aproximando duas forças que Washington considerava particularmente poderosas: cristianismo e marxismo. O relatório observava ainda seu caráter abertamente crítico aos Estados Unidos e ao capitalismo.
Mais adiante, o documento é explícito ao afirmar que a Teologia da Libertação, embora pudesse contribuir para processos de democratização contra regimes autoritários, também havia representado uma grande ameaça aos interesses norte-americanos, especialmente quando religiosos colaboravam com movimentos marxistas ou revolucionários.
A própria inteligência norte-americana estava classificando uma corrente do cristianismo latino-americano de acordo com sua relação com interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Documento primário:
CIA, Directorate of Intelligence — Liberation Theology: Religion, Reform, and Revolution, abril de 1986.
Por que a Teologia da Libertação preocupava Washington?
A Teologia da Libertação ganhou força na América Latina a partir das décadas de 1960 e 1970 em um contexto marcado por pobreza extrema, concentração fundiária, desigualdade e ditaduras militares.
Ela deslocava parte do cristianismo latino-americano para questões concretas: fome, exploração, direitos humanos, organização popular e estruturas econômicas.
Essa transformação não era apenas teológica.
Em países como Brasil, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e Chile, sacerdotes, religiosos e leigos passaram a participar de movimentos comunitários, sindicatos, organizações camponesas e campanhas de direitos humanos. A historiografia sobre o período reconhece que a Guerra Fria acrescentou a esses conflitos sociais locais uma disputa ideológica internacional entre revolução e contrarrevolução.
O relatório da CIA oferece uma demonstração particularmente clara de como Washington enxergava o fenômeno.
Ao analisar o Brasil, a agência estimava entre 70 mil e 100 mil Comunidades Eclesiais de Base e dizia que a Teologia da Libertação havia estimulado organizações de base que ampliavam a participação popular nas reformas políticas e sociais.
O mesmo trecho registrava a aproximação de setores católicos com sindicatos e com o então emergente Partido dos Trabalhadores, especialmente em São Paulo.
Isso ajuda a explicar a atenção da inteligência norte-americana. Não se tratava simplesmente de saber no que os católicos acreditavam. Tratava-se de compreender quem conseguia organizar os pobres, mobilizar trabalhadores e transformar autoridade religiosa em participação política.
O Brasil aparece diretamente nos documentos
Outro documento conservado no arquivo da CIA é uma reportagem de 16 de fevereiro de 1985 com o título Bishops’ Report Names CIA — Says U.S. Has ‘Infiltrated’ Non-Catholic Groups in Brazil.
Aqui a distinção de autoria é importante: o texto não foi escrito pela CIA. É uma matéria da Associated Press, publicada pelo Washington Post, cuja cópia acabou preservada nos arquivos da agência.
Mas seu conteúdo é historicamente significativo.
A reportagem informa que um estudo elaborado no âmbito da Igreja Católica brasileira e enviado ao Vaticano acusava a CIA de ter infiltrado grupos religiosos não católicos e afirmava que organizações norte-americanas enviavam grandes quantias de dinheiro para grupos religiosos independentes no Brasil.
Segundo a matéria, o documento também afirmava que CIA e missões norte-americanas teriam ajudado determinados grupos a entrar no Brasil, inclusive facilitando vistos.
A porta-voz da CIA citada na reportagem respondeu que a agência não comentava acusações relativas às suas atividades. O próprio levantamento dos bispos, entretanto, não explicava como teria sido estabelecida a infiltração nem identificava claramente quais grupos teriam recebido apoio financeiro.
Esse detalhe muda o peso da evidência.
O documento prova que bispos brasileiros formularam a acusação e que ela foi considerada suficientemente relevante para circular na imprensa internacional e chegar aos arquivos da CIA.
Não prova, isoladamente, que todas as acusações eram verdadeiras.
Mas também seria errado tratar essas suspeitas como se tivessem surgido décadas depois na internet. Elas existiam durante o próprio período histórico investigado.
Missionários dos Estados Unidos já transformavam o campo religioso brasileiro
Independentemente de qualquer operação clandestina, a influência norte-americana sobre o protestantismo brasileiro está amplamente documentada pela historiografia.
Em sua tese de doutorado na Ohio State University, o historiador Markus Schoof analisou a expansão do evangelicalismo norte-americano no Brasil entre 1911 e 1969.
Sua conclusão é clara: missionários protestantes dos Estados Unidos foram agentes relevantes de transformação cultural e transmitiram a comunidades brasileiras elementos de suas próprias perspectivas anticomunistas, paternalistas e conservadoras. Ao mesmo tempo, Schoof enfatiza que os brasileiros não foram receptores passivos dessas ideias: apropriaram-se delas, transformaram instituições e criaram suas próprias formas de evangelicalismo.
Essa nuance é essencial.
Influência norte-americana não significa controle absoluto.
Uma religião importada ou difundida por missionários pode posteriormente adquirir autonomia, produzir lideranças locais e desenvolver objetivos completamente próprios.
Mas isso não apaga sua história transnacional.
Protestantismo e anticomunismo se encontraram antes da CIA entrar na discussão
O vínculo entre parte do evangelicalismo norte-americano e o anticomunismo não nasceu na década de 1980.
Pesquisa publicada pelo Journal of American Studies, da Cambridge University Press, mostra que organizações missionárias protestantes norte-americanas já politizavam deliberadamente sua mensagem anticomunista desde pelo menos os anos 1930.
Na Guerra Fria, essa relação se intensificou.
A pesquisa demonstra que missionários, organizações evangélicas e figuras como Billy Graham desenvolveram redes que se cruzavam com diplomatas, autoridades políticas e formuladores de política externa dos Estados Unidos. Em determinados momentos, os próprios representantes dessas organizações recorriam ao Departamento de Estado para defender seus interesses na América Latina.
A interação não precisa ser reduzida a uma cadeia de comando governamental para possuir relevância geopolítica.
Estados, igrejas, empresas, fundações, organizações missionárias e movimentos políticos podem perseguir objetivos semelhantes sem funcionar como uma única organização.
Esse é precisamente o tipo de rede transnacional que torna a história da religião durante a Guerra Fria mais complexa.
Guatemala: quando religião, anticomunismo e repressão convergiram
A Guatemala oferece um dos exemplos mais extremos.
Em março de 1982, o general Efraín Ríos Montt chegou ao poder por meio de um golpe militar.
Ríos Montt era membro de uma igreja evangélica ligada à Gospel Outreach, organização baseada na Califórnia.
Uma edição de 1983 do Covert Action Information Bulletin dedicou extensa investigação às relações entre grupos evangélicos norte-americanos e o regime guatemalteco.
A publicação descrevia encontros e campanhas de apoio envolvendo líderes religiosos dos Estados Unidos e organizações que arrecadavam recursos para programas conduzidos na Guatemala durante a campanha de contrainsurgência.
O boletim era uma publicação independente e explicitamente crítica à CIA. Portanto, suas acusações precisam ser tratadas como investigação jornalística e política, não como admissão da agência.
Mas pesquisas acadêmicas posteriores confirmam aspectos centrais daquele contexto.
A Oxford Research Encyclopedia of Latin American History registra que grupos pentecostais norte-americanos ganharam influência nas relações entre Estados Unidos e América Central durante os anos 1980 e que importantes líderes evangélicos norte-americanos apoiaram Ríos Montt devido ao seu forte anticomunismo. Ronald Reagan também defendeu publicamente o governante guatemalteco.
Essa convergência ocorreu enquanto forças de segurança guatemaltecas eram acusadas de graves violações de direitos humanos.
O ponto relevante não é afirmar que “os evangélicos produziram a ditadura”.
É reconhecer que setores religiosos norte-americanos forneceram legitimidade política, redes internacionais, recursos e discurso moral a um regime militar anticomunista.
Ajuda humanitária ou parte da contrainsurgência?
O Covert Action Information Bulletin apresentou uma acusação ainda mais grave.
Segundo sua investigação, organizações religiosas norte-americanas participavam de programas de assistência nas regiões de combate guatemaltecas enquanto mantinham relações estreitas com estruturas militares responsáveis pela política de contrainsurgência.
A edição menciona organizações como International Love Lift, Youth With a Mission e Gospel Outreach e descreve missões que distribuíam alimentos, medicamentos e outros recursos em regiões onde as forças armadas estavam tentando reorganizar populações rurais.
O boletim argumentava que a assistência humanitária podia, naquele contexto, integrar uma estratégia política de pacificação e controle territorial.
Essas acusações não podem ser automaticamente generalizadas para todas as organizações missionárias. Mas mostram como, em guerras internas, a fronteira entre assistência religiosa, intervenção humanitária, evangelização e política de Estado pode tornar-se extremamente difícil de separar.
Nicarágua: a religião estava dos dois lados
A Nicarágua demonstra por que qualquer narrativa simples sobre “religião versus comunismo” também é insuficiente.
Setores católicos participaram diretamente da Revolução Sandinista.
O relatório de 1986 da CIA descreve a aliança formada entre cristãos ligados à chamada Igreja Popular e o movimento sandinista. A agência acompanhava padres e Comunidades Eclesiais de Base que haviam participado de atividades revolucionárias ou continuavam apoiando o governo depois de 1979.
Ao mesmo tempo, outros líderes católicos se tornaram opositores do sandinismo.
Ou seja, a disputa política atravessava a própria Igreja.
Para Washington, entretanto, a participação de religiosos em movimentos revolucionários era especialmente preocupante porque lhes conferia algo que partidos marxistas muitas vezes não possuíam:
legitimidade moral e acesso a comunidades profundamente religiosas.
É essa capacidade de transformar o cristianismo em linguagem de mobilização popular que aparece repetidamente no relatório da CIA.
A própria CIA reconheceu relações com pessoas ligadas a igrejas
Existe outro documento oficial que ajuda a contextualizar as denúncias sobre religião e inteligência.
Em fevereiro de 1976, depois das investigações do Congresso norte-americano sobre abusos dos serviços de inteligência, o diretor da CIA publicou uma nova política sobre relações com jornalistas e religiosos.
O texto reconhecia que a agência havia feito “uso limitado” de pessoas ligadas a organizações religiosas e missionárias, embora negasse impropriedade. A nova política afirmava que não haveria relação secreta remunerada ou contratual com clérigos ou missionários norte-americanos, embora a CIA continuasse aceitando informações fornecidas voluntariamente por pessoas desses grupos.
Esse documento não confirma todas as acusações feitas posteriormente sobre missões específicas.
Mas estabelece um ponto relevante: a relação entre inteligência e pessoas ligadas a organizações religiosas não era uma fantasia inventada por críticos latino-americanos.
Era suficientemente real e politicamente controversa para gerar uma política formal da própria agência após as investigações do chamado Church Committee, criado pelo Senado para investigar abusos de poder da CIA, FBI e outras estruturas de inteligência.
O Summer Institute of Linguistics e a controvérsia missionária
O Covert Action Information Bulletin dedica ainda um capítulo ao Summer Institute of Linguistics/Wycliffe Bible Translators, organização missionária que atuava entre populações indígenas e traduzia a Bíblia para línguas locais.
A publicação relata acusações, especialmente na Colômbia e em outras áreas da América Latina, de que o trabalho linguístico também criava relações privilegiadas com comunidades indígenas e governos nacionais.
Novamente, o documento é uma fonte crítica, não uma decisão judicial nem uma admissão da CIA.
Mas é significativo que missões religiosas ocupassem posição tão sensível em países onde territórios indígenas, recursos naturais, guerrilhas e políticas de segurança nacional frequentemente se sobrepunham.
É justamente nesse espaço que missão religiosa e geopolítica podiam convergir.
Então os Estados Unidos “evangelizaram” a América Latina?
A evidência disponível permite responder de maneira mais precisa.
Os Estados Unidos tiveram enorme influência sobre a expansão do protestantismo na América Latina.
Isso está bem documentado.
Missionários, recursos financeiros, instituições teológicas, literatura religiosa, rádio, televisão, universidades e redes de evangelização atravessaram o continente durante todo o século XX. Estudos recentes mostram que o crescimento missionário ocorreu paralelamente ao aumento do poder político, econômico e diplomático norte-americano na região.
Parte importante dessas redes era explicitamente anticomunista.
Isso também está documentado.
A CIA acompanhava as transformações religiosas e avaliava determinadas correntes cristãs segundo os interesses dos Estados Unidos.
O relatório secreto de 1986 demonstra isso diretamente.
Existiram relações entre serviços de inteligência e indivíduos vinculados a instituições religiosas.
A própria política da CIA de 1976 confirma que tais relações haviam se tornado objeto de controvérsia institucional, ainda que a agência negasse relações secretas remuneradas com clérigos e missionários americanos.
O que os três documentos analisados aqui não demonstram, porém, é a existência de uma ordem central da CIA estabelecendo algo como “substituir o catolicismo da América Latina pelo evangelicalismo”.
Não é necessário inventar essa ordem para reconhecer o problema histórico.
O Brasil não foi um receptor passivo
Também seria um erro reduzir o evangelicalismo brasileiro a uma importação dos Estados Unidos.
As igrejas que chegaram ou cresceram sob influência estrangeira foram progressivamente apropriadas por brasileiros.
Novas denominações surgiram.
Lideranças locais construíram instituições próprias.
Redes brasileiras desenvolveram televisão, rádio, editoras, universidades, partidos e missões internacionais.
Hoje o Brasil não é simplesmente receptor de missões: é também um grande exportador de missionários.
A pesquisa de Schoof é particularmente importante justamente por mostrar os dois movimentos simultaneamente: influência cultural norte-americana e agência brasileira.
Décadas depois, Claudia Zilla mostra como igrejas pentecostais e neopentecostais brasileiras passaram a ocupar espaços sociais deixados pelo Estado e pelo catolicismo e transformaram sua força social em representação política própria.
Isso significa que a história iniciada em redes missionárias estrangeiras não termina nelas.
Uma disputa pelo significado do cristianismo
Talvez a conclusão mais importante dos documentos seja outra.
A Guerra Fria latino-americana também foi uma disputa dentro do cristianismo.
De um lado estavam setores que associavam a fé à transformação das estruturas econômicas, organização popular e justiça social.
De outro, correntes que associavam cristianismo, anticomunismo, propriedade privada, iniciativa individual e defesa da ordem.
Nenhum desses campos foi completamente homogêneo.
Mas Washington percebeu a diferença.
Quando um relatório da CIA identifica uma corrente religiosa como ameaça potencial aos interesses norte-americanos porque ela responsabilizava os Estados Unidos e o capitalismo pela pobreza do chamado Terceiro Mundo, ele revela muito sobre a lógica da época.
A disputa não era apenas entre fé e ateísmo.
Era também uma disputa sobre qual cristianismo teria maior capacidade de organizar a sociedade latino-americana.
O que os arquivos permitem afirmar
Os documentos analisados não oferecem uma explicação total para a transformação religiosa da América Latina.
Mas tornam difícil sustentar que religião e política externa norte-americana eram universos separados.
A evidência disponível mostra uma combinação de:
- expansão de missões protestantes norte-americanas;
- circulação de dinheiro e instituições religiosas transnacionais;
- anticomunismo presente em importantes organizações evangélicas;
- relações entre lideranças religiosas e autoridades políticas dos Estados Unidos;
- acompanhamento sistemático da Teologia da Libertação pela inteligência norte-americana;
- apoio de setores religiosos dos EUA a governos anticomunistas na América Central;
- denúncias contemporâneas de infiltração e utilização política de organizações religiosas;
- e reconhecimento, pela própria CIA, de relações com indivíduos ligados ao mundo religioso.
Isso não transforma cada missionário em agente secreto.
Também não transforma milhões de evangélicos latino-americanos em produtos de uma estratégia estrangeira.
Mas impede a conclusão oposta: a de que a extraordinária transformação religiosa do continente aconteceu fora da história do poder norte-americano na América Latina.
Ela aconteceu dentro dessa história.
E, em determinados momentos, fé, política externa, anticomunismo e inteligência estiveram muito mais próximos do que a memória oficial da Guerra Fria costuma sugerir.
Referências principais
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https://www.cia.gov/readingroom/docs/CIA-RDP97R00694R000600050001-9.pdf
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ASSOCIATED PRESS. Bishops’ Report Names CIA: Says U.S. Has “Infiltrated” Non-Catholic Groups in Brazil. The Washington Post, Washington, 16 fev. 1985. Cópia preservada no CIA Reading Room. Disponível em:
https://www.cia.gov/readingroom/docs/CIA-RDP91-00587R000200880109-6.pdf
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