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Narrativas do Sul Global: quem conta a história?

por 30 de março de 2026Sul Global0 Comentários

A forma como o mundo é narrado continua concentrada em poucos centros de poder, majoritariamente localizados na Europa e nos Estados Unidos. Essa concentração influencia não apenas quais temas ganham visibilidade, mas também como eventos internacionais são interpretados.

Em um cenário marcado por disputas geopolíticas, a produção de narrativas se torna um instrumento de poder. Controlar a narrativa significa, em grande medida, influenciar a forma como crises, conflitos e países são percebidos globalmente.

Quem produz o conhecimento global

No campo acadêmico, essa desigualdade é evidente. A produção científica internacional permanece fortemente concentrada no Norte Global. Estudos indicam que pesquisadores do Sul Global são responsáveis por apenas cerca de 16% dos artigos publicados, enquanto aproximadamente 73% são produzidos por autores do Norte Global, segundo análise sobre desigualdades na produção científica global (https://www.preprints.org/blog/post/global-north-south-academic-equity).

Além disso, países como Estados Unidos e Reino Unido, que representam uma pequena parcela da população mundial, concentram uma parte desproporcional da produção científica de maior impacto. Estimativas apontam que esses países respondem por cerca de 50% dos trabalhos mais citados em áreas como ciências sociais, conforme discussão sobre concentração de conhecimento global (https://www.acume.org/news/why-the-global-north-still-dominates-knowledge-production/).

Outro dado relevante mostra que a concentração também ocorre na própria estrutura editorial do conhecimento. Uma parcela significativa dos periódicos acadêmicos indexados internacionalmente está sediada na Europa Ocidental, enquanto a maior parte do restante se encontra na América do Norte, como mostra estudo sobre a distribuição geográfica de revistas científicas (https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10749034/).

Essa concentração não é apenas quantitativa, mas também qualitativa: são esses centros que, em grande medida, definem critérios de relevância, impacto e legitimidade científica no sistema internacional.

Barreiras estruturais e linguísticas

A desigualdade na produção de conhecimento permanece fortemente associada a barreiras estruturais no sistema científico global. Dados da UNESCO mostram que a capacidade de pesquisa continua concentrada: países de alta renda concentram a maior parte dos investimentos em ciência e inovação, enquanto regiões inteiras permanecem subfinanciadas. Em termos de distribuição de pesquisadores, a disparidade é evidente: a África Subsaariana, por exemplo, representa cerca de 14% da população mundial, mas menos de 1% dos pesquisadores, enquanto regiões como Europa, América do Norte e partes da Ásia concentram a maior parte da força científica global . Esse desequilíbrio afeta diretamente a produção científica por continente, limitando a capacidade de países do Sul Global de definir agendas de pesquisa e participar de redes internacionais de alto impacto.

(c) UNESCO

Além disso, as desigualdades se reproduzem no acesso a financiamento e infraestrutura. Atualizações recentes da UNESCO indicam que os dados globais de pesquisa e desenvolvimento continuam sendo dominados por um número limitado de países, com forte concentração de recursos em economias avançadas e emergentes de grande porte . Isso significa que, mesmo com crescimento global da ciência, a expansão não ocorre de forma equilibrada entre regiões. Como resultado, países do Sul Global enfrentam não apenas menor capacidade de produção, mas também menor inserção em redes científicas internacionais, o que reduz visibilidade, impacto e circulação do conhecimento produzido nessas regiões.

Narrativas, mídia e geopolítica

Essa concentração também se reflete na cobertura jornalística internacional. Grandes veículos de mídia global — sediados majoritariamente no Norte — continuam a definir a agenda internacional.

Conflitos e crises são frequentemente narrados a partir dessas perspectivas. A cobertura da guerra na Ucrânia, por exemplo, recebeu atenção intensa e imediata, enquanto conflitos prolongados em regiões africanas ou no Oriente Médio frequentemente recebem cobertura limitada ou episódica.

No caso de Gaza, a disputa por narrativas é evidente. Termos utilizados, enquadramentos adotados e fontes priorizadas influenciam diretamente a percepção internacional do conflito.

Além disso, países do Sul Global frequentemente aparecem nas notícias associados a instabilidade, crise ou dependência, enquanto contextos históricos e fatores externos são menos explorados.

Narrativa como instrumento de poder

A produção de narrativas não é neutra. Ela está diretamente ligada a relações de poder. Países com maior capacidade de produção midiática e acadêmica conseguem definir padrões e influenciar debates globais.

Isso se conecta diretamente à geopolítica. Narrativas podem legitimar sanções, intervenções ou políticas externas. A forma como países como Venezuela, Cuba, Palestina ou Irã são retratados, por exemplo, influencia não apenas a opinião pública, mas também decisões políticas internacionais.

Nesse sentido, o controle da narrativa funciona como uma extensão do poder internacional — menos visível que o poder militar, mas igualmente estratégico.

Emergência de novas vozes

Apesar dessas desigualdades, há mudanças em curso. O avanço de plataformas digitais, mídias independentes e redes acadêmicas alternativas tem ampliado o espaço para vozes do Sul Global.

Veículos regionais, jornalistas independentes e pesquisadores têm produzido análises que desafiam narrativas dominantes e oferecem perspectivas mais contextualizadas.

Além disso, o crescimento de países como China, Índia e Brasil também impacta a produção de conhecimento e informação, contribuindo para um cenário mais plural — ainda que marcado por disputas.

O que está em disputa

A questão central não é apenas quem conta a história, mas quem define o que é considerado verdade, relevante e legítimo.

Em um sistema internacional ainda estruturado por desigualdades históricas, a disputa por narrativas é também uma disputa por poder.

Ampliar a diversidade de vozes não é apenas uma questão de representação, mas de transformação das próprias bases sobre as quais o conhecimento global é produzido e disseminado.

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