A forma como o mundo é narrado continua concentrada em poucos centros de poder, majoritariamente localizados na Europa e nos Estados Unidos. Essa concentração influencia não apenas quais temas ganham visibilidade, mas também como eventos internacionais são interpretados.
Em um cenário marcado por disputas geopolíticas, a produção de narrativas se torna um instrumento de poder. Controlar a narrativa significa, em grande medida, influenciar a forma como crises, conflitos e países são percebidos globalmente.
Quem produz o conhecimento global
No campo acadêmico, essa desigualdade é evidente. A produção científica internacional permanece fortemente concentrada no Norte Global. Estudos indicam que pesquisadores do Sul Global são responsáveis por apenas cerca de 16% dos artigos publicados, enquanto aproximadamente 73% são produzidos por autores do Norte Global, segundo análise sobre desigualdades na produção científica global (https://www.preprints.org/blog/post/global-north-south-academic-equity).
Além disso, países como Estados Unidos e Reino Unido, que representam uma pequena parcela da população mundial, concentram uma parte desproporcional da produção científica de maior impacto. Estimativas apontam que esses países respondem por cerca de 50% dos trabalhos mais citados em áreas como ciências sociais, conforme discussão sobre concentração de conhecimento global (https://www.acume.org/news/why-the-global-north-still-dominates-knowledge-production/).
Outro dado relevante mostra que a concentração também ocorre na própria estrutura editorial do conhecimento. Uma parcela significativa dos periódicos acadêmicos indexados internacionalmente está sediada na Europa Ocidental, enquanto a maior parte do restante se encontra na América do Norte, como mostra estudo sobre a distribuição geográfica de revistas científicas (https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10749034/).
Essa concentração não é apenas quantitativa, mas também qualitativa: são esses centros que, em grande medida, definem critérios de relevância, impacto e legitimidade científica no sistema internacional.
Barreiras estruturais e linguísticas
Narrativas, mídia e geopolítica
Essa concentração também se reflete na cobertura jornalística internacional. Grandes veículos de mídia global — sediados majoritariamente no Norte — continuam a definir a agenda internacional.
Conflitos e crises são frequentemente narrados a partir dessas perspectivas. A cobertura da guerra na Ucrânia, por exemplo, recebeu atenção intensa e imediata, enquanto conflitos prolongados em regiões africanas ou no Oriente Médio frequentemente recebem cobertura limitada ou episódica.
No caso de Gaza, a disputa por narrativas é evidente. Termos utilizados, enquadramentos adotados e fontes priorizadas influenciam diretamente a percepção internacional do conflito.
Além disso, países do Sul Global frequentemente aparecem nas notícias associados a instabilidade, crise ou dependência, enquanto contextos históricos e fatores externos são menos explorados.
Narrativa como instrumento de poder
A produção de narrativas não é neutra. Ela está diretamente ligada a relações de poder. Países com maior capacidade de produção midiática e acadêmica conseguem definir padrões e influenciar debates globais.
Isso se conecta diretamente à geopolítica. Narrativas podem legitimar sanções, intervenções ou políticas externas. A forma como países como Venezuela, Cuba, Palestina ou Irã são retratados, por exemplo, influencia não apenas a opinião pública, mas também decisões políticas internacionais.
Nesse sentido, o controle da narrativa funciona como uma extensão do poder internacional — menos visível que o poder militar, mas igualmente estratégico.
Emergência de novas vozes
Apesar dessas desigualdades, há mudanças em curso. O avanço de plataformas digitais, mídias independentes e redes acadêmicas alternativas tem ampliado o espaço para vozes do Sul Global.
Veículos regionais, jornalistas independentes e pesquisadores têm produzido análises que desafiam narrativas dominantes e oferecem perspectivas mais contextualizadas.
Além disso, o crescimento de países como China, Índia e Brasil também impacta a produção de conhecimento e informação, contribuindo para um cenário mais plural — ainda que marcado por disputas.
O que está em disputa
A questão central não é apenas quem conta a história, mas quem define o que é considerado verdade, relevante e legítimo.
Em um sistema internacional ainda estruturado por desigualdades históricas, a disputa por narrativas é também uma disputa por poder.
Ampliar a diversidade de vozes não é apenas uma questão de representação, mas de transformação das próprias bases sobre as quais o conhecimento global é produzido e disseminado.




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