Relações Sul-Sul: alternativas ao modelo dominante no sistema internacional
Nas últimas décadas, as relações entre países do Sul Global deixaram de ser tratadas como mera retórica diplomática e passaram a ocupar um lugar mais estruturado no debate sobre poder, desenvolvimento e governança internacional. Mais do que uma simples diversificação de parceiros comerciais, a cooperação Sul-Sul se consolidou como tentativa de reequilibrar um sistema internacional historicamente moldado por assimetrias entre centro e periferia. Nesse processo, iniciativas como BRICS, Mercosul, IBAS e a atuação coordenada do G77 na ONU ganharam densidade política porque oferecem aos países do Sul instrumentos para reduzir vulnerabilidades externas, ampliar margens de autonomia e disputar normas em áreas como financiamento, comércio, tecnologia, clima e reforma institucional.
A crítica que sustenta esse movimento não é nova. Durante boa parte do século XX, a cooperação internacional foi organizada em chave vertical, na qual países do Norte financiavam, supervisionavam e condicionavam políticas em países em desenvolvimento. O problema nunca foi apenas econômico. Em muitos casos, a ajuda vinha acompanhada de exigências macroeconômicas, condicionalidades institucionais e prioridades desenhadas fora dos contextos locais. A cooperação Sul-Sul emerge justamente como reação a esse padrão. Em vez de uma relação doador-receptor, ela se apresenta como intercâmbio entre parceiros que compartilham problemas semelhantes, trajetórias históricas próximas e interesse comum em reformar a governança global. A própria ONU reafirmou em 2025 o documento de Buenos Aires como principal marco normativo da cooperação Sul-Sul, destacando a necessidade de fortalecer sua mensuração, seu financiamento e sua institucionalização.
BRICS e a construção de uma agenda própria
O BRICS é hoje o exemplo mais visível dessa tentativa de reorganizar o espaço político do Sul Global. Em 2025, sob presidência brasileira, o grupo passou a enfatizar cooperação em saúde, clima, inteligência artificial, infraestrutura e financiamento em moedas locais, ao mesmo tempo em que reforçou o papel do Novo Banco de Desenvolvimento como instrumento de modernização e desenvolvimento para o Sul Global. A Declaração do Rio de Janeiro não se limitou a proclamações genéricas: ela apoiou a expansão da capacidade do banco de mobilizar recursos, diversificar fontes de financiamento e ampliar operações em moedas locais, além de registrar avanços em plataformas de investimento e em mecanismos de integração econômica.
A importância disso vai além do simbolismo. Em um sistema financeiro internacional ainda fortemente dependente do dólar e de instituições criadas sob liderança ocidental, a capacidade de financiar projetos em moedas locais reduz custos de transação, mitiga riscos cambiais e amplia o espaço de política econômica dos países membros. O debate sobre desdolarização às vezes é tratado com exagero, mas o dado central é outro: o BRICS vem tentando construir, de forma gradual, mecanismos complementares ao arranjo financeiro tradicional. Isso se conecta a uma percepção mais ampla, hoje presente inclusive em documentos europeus, de que o sistema monetário internacional está sendo remodelado por fragmentação geopolítica, dúvidas sobre o dólar como ativo seguro e novas tecnologias de pagamento.
Também é importante notar que o BRICS vem ampliando sua agenda temática. Em 2025, os líderes aprovaram uma declaração específica sobre governança global da inteligência artificial, defendendo o direito dos países em desenvolvimento de participar da economia digital em bases menos assimétricas. O ponto político aqui é decisivo: para o Sul Global, tecnologia não pode ser tratada apenas como questão de mercado, mas como dimensão de soberania, industrialização e desenvolvimento.
China, Brasil e a densidade material da cooperação Sul-Sul
Se o BRICS expressa uma moldura política mais ampla, a relação entre China e Brasil mostra como a cooperação Sul-Sul ganha densidade concreta quando se projeta sobre finanças, comércio, infraestrutura e ciência. Em 2025, os bancos centrais dos dois países firmaram acordo de swap cambial e memorando para aprofundar a cooperação financeira estratégica, incluindo infraestrutura financeira, pagamentos e uso de moedas locais. O sentido geopolítico desse movimento é claro: reduzir custos de dependência externa e tornar a relação bilateral menos vulnerável a choques vindos dos centros tradicionais de poder.
Ao mesmo tempo, a parceria sino-brasileira avançou em áreas de alto conteúdo tecnológico. O desenvolvimento conjunto do satélite CBERS-5, anunciado em 2025, reforça uma tradição de cooperação espacial que contrasta com a ideia de que a divisão internacional do trabalho condenaria os países do Sul a exportar apenas commodities. Esse tipo de iniciativa é importante porque combina transferência tecnológica, capacitação científica e fortalecimento da autonomia estratégica.
Brasil e África do Sul: o eixo atlântico do Sul Global
Outro exemplo importante é a retomada da parceria entre Brasil e África do Sul, que em 2026 ganhou novo impulso com a visita de Estado de Cyril Ramaphosa a Brasília. Os dois governos apresentaram essa relação como parte de um esforço para aproximar América do Sul e África por meio de comércio, investimento, turismo, cooperação sanitária, pesquisa, agronegócio, ciência, defesa e inovação.
Lula afirmou, em declaração pública, que Brasil e África do Sul compartilham a luta por “uma ordem global mais equilibrada e representativa, baseada no direito internacional e no multilateralismo”, linguagem que sintetiza bem o horizonte político dessa aproximação.
A parceria tem valor simbólico, mas também utilidade estratégica. Ramaphosa defendeu que a África do Sul se torne porta de entrada do Brasil para os mercados africanos, especialmente no contexto da Área de Livre Comércio Continental Africana, enquanto o Brasil funcionaria como ponte sul-africana para a América Latina. Essa ideia de “corredor Sul-Sul” é relevante porque desloca o eixo da integração internacional: em vez de depender exclusivamente das conexões com Europa ou Estados Unidos, os países do Sul tentam construir circuitos próprios de circulação de bens, investimentos e tecnologia.
Mercosul: integração regional, cidadania e capacidade de negociação
O Mercosul continua sendo um pilar central da estratégia sul-americana de inserção internacional. Apesar de suas crises recorrentes, o bloco preserva relevância justamente porque fornece escala regional, coordenação regulatória e maior poder de barganha externa. Em 2025 e 2026, o Mercosul não apenas seguiu negociando com parceiros extrarregionais, mas também avançou em acordos importantes com a União Europeia e com a EFTA, formada por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça. O acordo EFTA-Mercosul foi assinado em setembro de 2025, e a União Europeia formalizou em janeiro de 2026 a assinatura dos instrumentos do acordo com o bloco sul-americano.
Esses movimentos mostram que a integração regional não é incompatível com a diversificação global; ao contrário, ela pode fortalecê-la. O Mercosul funciona como plataforma a partir da qual os países do Cone Sul negociam em melhores condições com atores maiores. Ao mesmo tempo, a integração regional não se reduz ao comércio. Em março de 2026, o Itamaraty destacou o papel do FOCEM na redução de assimetrias internas por meio de projetos de infraestrutura, integração produtiva e coesão social, além da importância do Estatuto da Cidadania do Mercosul para facilitar circulação, acesso a serviços públicos e igualdade de oportunidades entre nacionais dos países membros.
Isso importa porque uma das limitações clássicas das economias periféricas é a fragmentação. Sem mercado regional, sem infraestrutura compartilhada e sem coordenação regulatória, cada país negocia de forma mais vulnerável. A integração regional, portanto, não é só tema comercial; é instrumento de soberania. Mesmo quando enfrenta divergências internas, o Mercosul preserva uma função estratégica: impedir que a América do Sul retorne integralmente à condição de espaço disperso e facilmente subordinado às prioridades de potências externas.
Sul Global, ONU e padrões de voto
A cooperação Sul-Sul também se expressa nas instituições multilaterais, especialmente na ONU. Não se trata de afirmar que todos os países do Sul votam sempre do mesmo modo. Há divergências importantes entre eles, inclusive em temas de segurança, gênero, dívida e relações com grandes potências. Ainda assim, a literatura recente mostra que o G77 mantém um nível significativo de solidariedade em seu comportamento na Assembleia Geral, mesmo com o aumento da heterogeneidade econômica entre seus membros. Um estudo de 2025 resumiu essa conclusão de forma clara: o grupo “mantém sua solidariedade” no padrão de votação da Assembleia Geral.
Essa convergência aparece sobretudo em pautas como reforma da governança global, defesa do multilateralismo, direito ao desenvolvimento, financiamento climático, crítica a sanções unilaterais e apoio a posições históricas sobre Palestina e soberania permanente sobre recursos naturais. O G77 e China continuam operando por meio de declarações conjuntas, intervenções coletivas e coordenação negociadora, inclusive em 2025, quando reiteraram posições comuns em desenvolvimento sustentável, orçamento da ONU e reforma institucional. Pesquisas recentes e análises parlamentares sobre padrões de voto também apontam que, em temas como Gaza, há clara distância entre boa parte do Sul Global e as posições dos Estados Unidos e de seus aliados mais próximos.
Esse alinhamento relativo é importante porque ajuda a explicar por que a disputa pela governança global hoje não se resume ao confronto entre Washington e Pequim. Existe também uma pressão mais difusa, porém crescente, de países do Sul por regras menos assimétricas e por maior representação nas instituições internacionais. A cooperação Sul-Sul não substitui a diplomacia universal, mas altera sua correlação de forças.
Conclusão: por que essas alianças importam mais agora
A relevância dessas alianças aumenta justamente num momento de instabilidade mais ampla. A Europa atravessa crescimento fraco, maior incerteza e dificuldades políticas para converter ambições geoeconômicas em ação consistente. O FMI registrou rebaixamento relevante das perspectivas para a Europa em 2025, associado a tarifas, incerteza e condições financeiras mais duras, enquanto o próprio debate europeu sobre o acordo com o Mercosul expõe divisões internas e obstáculos jurídicos e políticos persistentes.
Ao mesmo tempo, a política externa agressiva de Donald Trump reforça uma percepção de declínio relativo dos Estados Unidos não necessariamente em poder bruto, mas em legitimidade, previsibilidade e capacidade de liderança consensual. Quando Washington combina unilateralismo, pressão tarifária, militarização diplomática e hostilidade a arranjos multilaterais, empurra parte do sistema internacional a procurar amortecedores externos. É nesse contexto que BRICS, Mercosul, IBAS, G77 e outras formas de concertação do Sul ganham importância. Elas funcionam como instrumentos de diversificação estratégica diante de um Ocidente menos estável, menos coeso e, em certos casos, menos comprometido com as próprias regras que ajudou a construir.
Por isso, as relações Sul-Sul não devem ser vistas apenas como opção ideológica ou gesto diplomático. Elas são, cada vez mais, uma necessidade estrutural. Em um cenário de fragmentação global, guerra comercial, erosão normativa e disputa tecnológica, a capacidade de construir alianças horizontais entre países do Sul pode definir quem terá margem para negociar o futuro e quem continuará apenas reagindo a decisões tomadas em outros centros. O que está em jogo não é simplesmente comércio entre emergentes. É a possibilidade de transformar a autonomia em projeto político duradouro.



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