O dia 1º de julho, lembrado na Alemanha como Dia contra o Racismo Antimuçulmano, remete ao assassinato de Marwa El-Sherbini, morta em 2009 dentro de um tribunal em Dresden. O caso permanece como símbolo de uma violência que não se limita a insultos individuais ou episódios isolados. O racismo antimuçulmano atravessa debates sobre migração, segurança, integração, pertencimento e cidadania. Em uma Alemanha cada vez mais diversa, mas também marcada pela ascensão da extrema direita e pela securitização da vida pública, a forma como pessoas muçulmanas são vistas, representadas e tratadas diz muito sobre os limites reais da democracia.
Um crime que virou memória pública
Marwa El-Sherbini era uma farmacêutica egípcia, muçulmana, esposa e mãe. Em 1º de julho de 2009, foi assassinada no Tribunal Regional de Dresden durante uma audiência. Ela havia denunciado um homem que a insultara de forma racista em um parque infantil. No tribunal, o agressor a matou a facadas diante de seu filho pequeno e feriu gravemente seu marido.
A memória desse crime ocupa hoje um lugar importante na luta contra o racismo antimuçulmano na Alemanha. O 1º de julho não é apenas uma data de homenagem. É também um lembrete de que discursos de ódio, quando normalizados, podem se transformar em violência concreta. Marwa El-Sherbini não foi atacada por algo que fez, mas por aquilo que representava aos olhos de seu agressor: uma mulher muçulmana visível, com hijab, que decidiu reagir juridicamente a uma agressão racista.
O caso também expôs uma dificuldade recorrente: por muito tempo, parte do debate público alemão tratou a hostilidade contra muçulmanos como “crítica ao Islã”, “preocupação cultural” ou “medo da radicalização”. Essa confusão continua presente. Criticar ideias religiosas, instituições ou práticas políticas é parte legítima da liberdade de expressão. Transformar pessoas muçulmanas, ou percebidas como muçulmanas, em ameaça coletiva é outra coisa.
Quando a religião vira marcador racial
O termo “racismo antimuçulmano” pode causar estranhamento a quem entende religião apenas como crença individual. Mas, nas sociedades europeias contemporâneas, o “muçulmano” frequentemente aparece como categoria racializada. Isso significa que pessoas são tratadas como muçulmanas — e discriminadas por isso — com base em aparência, nome, origem, idioma, cor da pele, roupa ou suposta cultura familiar, independentemente de sua prática religiosa real.
Uma mulher com véu, um homem chamado Mohammed, uma família árabe, uma criança turca, uma pessoa do norte da África ou do sul da Ásia podem ser classificadas socialmente como “muçulmanas” antes mesmo de dizerem qualquer coisa sobre sua religião. O racismo, nesse caso, não depende da teologia. Depende de marcações sociais.
Por isso, o racismo antimuçulmano atinge tanto a liberdade religiosa quanto a igualdade perante a lei. Ele aparece na escola, no mercado de trabalho, na busca por moradia, no atendimento em repartições públicas, na cobertura da imprensa, nas redes sociais e nas interações cotidianas. Não se trata apenas de violência extrema, mas de uma soma constante de suspeitas, olhares, recusas e humilhações.
A Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia registrou, em pesquisa publicada em 2024, altos níveis de discriminação contra muçulmanos na Europa. Na Alemanha, segundo dados mencionados em materiais da FRA e de organizações de monitoramento, 68% dos muçulmanos entrevistados disseram ter sofrido discriminação racista nos cinco anos anteriores à pesquisa. Esse dado não descreve exceções. Descreve uma experiência social repetida.
Segurança pública ou suspeita permanente?
A Alemanha, como outros países europeus, tem razões legítimas para enfrentar violência política, terrorismo e radicalização. O problema começa quando a política de segurança transforma comunidades inteiras em objeto de suspeita preventiva. Desde os ataques de 11 de setembro de 2001 e, posteriormente, após atentados cometidos por grupos jihadistas na Europa, a figura do “muçulmano perigoso” ganhou força no imaginário político e midiático.
Esse enquadramento tem efeitos duradouros. Mesquitas passam a ser vistas como espaços de vigilância antes de serem reconhecidas como instituições religiosas. Jovens muçulmanos são interrogados sobre lealdade nacional. Mulheres com hijab são cobradas a provar autonomia, integração ou compatibilidade com “valores ocidentais”. Debates sobre crime, migração e extremismo frequentemente se misturam em uma mesma narrativa.
A segurança pública é uma função do Estado. Mas, em uma democracia constitucional, ela não pode operar por culpa coletiva. O Estado deve investigar atos, redes e organizações concretas, não transformar identidades religiosas em indício de ameaça. Quando a suspeita se torna permanente, a cidadania se torna condicional.
Esse é um dos dilemas centrais da Alemanha contemporânea. Milhões de pessoas muçulmanas vivem, trabalham, estudam, pagam impostos, cuidam de crianças, idosos e doentes, fundam empresas, participam da vida pública e constroem o país. Ainda assim, muitas continuam sendo tratadas como se sua presença exigisse explicação.
A normalização política da hostilidade
O crescimento da extrema direita alemã agravou esse cenário. A AfD e outros atores do campo nacionalista conseguiram transformar o Islã, a migração e a identidade nacional em temas centrais de mobilização eleitoral. O discurso raramente aparece apenas como ódio explícito. Muitas vezes surge como defesa da cultura, da segurança, das mulheres, da liberdade ou da “civilização europeia”.
Essa linguagem é eficaz porque desloca o racismo para uma zona aparentemente aceitável. Em vez de atacar diretamente pessoas muçulmanas, fala-se em “islamização”, “culturas incompatíveis”, “sociedades paralelas” ou “fracasso da integração”. O resultado, porém, é semelhante: milhões de pessoas passam a ser associadas a perigo, atraso ou ameaça demográfica.
O relatório do Unabhängiger Expertenkreis Muslimfeindlichkeit, apresentado em 2023 ao Ministério do Interior alemão, descreveu a hostilidade contra muçulmanos como um fenômeno presente em diferentes esferas sociais, incluindo política, mídia, escola, instituições e cotidiano. Essa constatação é importante porque rompe com a ideia de que o problema estaria restrito a grupos extremistas.
Quando imagens negativas sobre muçulmanos circulam repetidamente em discursos oficiais, capas de jornais, campanhas eleitorais ou comentários de autoridades, a fronteira entre o preconceito social e a legitimação institucional fica mais frágil. O racismo antimuçulmano não nasce apenas nas margens. Muitas vezes, ganha força quando encontra eco no centro do debate público.
Cidadania como pertencimento real
A questão da cidadania vai além do passaporte. Uma pessoa pode ter nacionalidade alemã e ainda ser tratada como estrangeira permanente. Pode falar alemão como primeira língua e ainda ouvir que “deve se integrar”. Pode nascer no país e continuar sendo interrogada sobre “de onde realmente vem”. Para muitos muçulmanos na Alemanha, a cidadania formal não garante automaticamente pertencimento social.
Isso tem consequências democráticas. Quando uma parte da população sente que suas experiências de discriminação são minimizadas, que sua segurança não é levada a sério e que sua presença é constantemente colocada sob suspeita, a confiança nas instituições se enfraquece. Combater o racismo antimuçulmano, portanto, não é uma pauta identitária isolada. É uma questão de qualidade democrática.
O relatório civil da CLAIM sobre 2025 documentou 4.096 incidentes antimuçulmanos na Alemanha, acima dos 3.080 registrados em 2024. A organização ressalta que os números representam apenas parte do fenômeno, porque muitos casos não são denunciados ou não chegam às estatísticas oficiais. Mesmo com essa limitação, a tendência indica um problema persistente e crescente.
O desafio alemão não é escolher entre segurança e direitos fundamentais. A democracia exige os dois. Um Estado pode combater radicalização sem criminalizar comunidades. Pode proteger judeus, muçulmanos, cristãos, pessoas sem religião e outros grupos minoritários sem estabelecer hierarquias de dignidade. Pode defender a liberdade de expressão sem aceitar a desumanização de populações inteiras.
O Dia contra o Racismo Antimuçulmano lembra que a violência começa antes do ataque físico. Começa quando uma pessoa deixa de ser vista como indivíduo e passa a ser lida como ameaça. A resposta democrática precisa começar no mesmo ponto: recusando a suspeita coletiva e afirmando que cidadania plena não pode depender da origem, do nome, da aparência ou da religião de alguém.
Fontes e referências
- Ministério Federal da Família, Idosos, Mulheres e Juventude da Alemanha — informação sobre o 1º de julho, Marwa El-Sherbini e o Dia contra o Racismo Antimuçulmano.
Link: https://www.bmbfsfj.bund.de/bmbfsfj/aktuelles/alle-meldungen/lisa-paus-dankt-zivilgesellschaftlichen-organisationen-fuer-ihr-engagement-242012 - Cidade de Dresden — Marwa El-Sherbini Gedenktag.
Link: https://www.dresden.de/de/rathaus/politik/demokratie-respekt/marwa-el-sherbini/gedenktag.php - Cidade de Dresden — página oficial sobre Marwa El-Sherbini.
Link: https://www.dresden.de/marwa - CLAIM — Bundesweites Lagebild antimuslimischer Rassismus 2025.
Link: https://www.claim-organisation.de/aktuelles/news/bundesweites-lagebild-antimuslimischer-rassismus-2025-veroeffentlicht/ - CLAIM — Zivilgesellschaftliches Lagebild antimuslimischer Rassismus, relatório 2025 em PDF.
Link: https://www.claim-organisation.de/content/uploads/2025/06/claim_lagebild25_250630_web.pdf - Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA) — Being Muslim in the EU: Experiences of Muslims, 2024.
Link: https://fra.europa.eu/de/publication/2024/being-muslim-eu - FRA — comunicado sobre o aumento do racismo e da discriminação contra muçulmanos na Europa.
Link: https://fra.europa.eu/en/news/2024/muslims-europe-face-ever-more-racism-and-discrimination - Comissão Europeia — Combating anti-Muslim hatred.
Link: https://commission.europa.eu/strategy-and-policy/policies/justice-and-fundamental-rights/combatting-discrimination/racism-and-xenophobia/combating-anti-muslim-hatred_en - Governo Federal alemão / Demokratie leben! — Aktionswochen gegen antimuslimischen Rassismus 2025.
Link: https://www.demokratie-leben.de/dl/service/aktuelles/aktionswochen-gegen-antimuslimischen-rassismus-2025-265696 - Unabhängiger Expertenkreis Muslimfeindlichkeit — Abschlussbericht sobre Muslimfeindlichkeit in Deutschland, 2023.
Link: https://www.deutsche-islam-konferenz.de/SharedDocs/Anlagen/DE/Publikationen/Studien/uem-abschlussbericht.pdf





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