Em meados de agosto, muitas famílias japonesas retornam às cidades de origem, visitam túmulos, acendem lanternas e participam de danças coletivas. O O-bon, ou simplesmente Bon, é uma das tradições mais conhecidas do verão japonês e combina memória dos antepassados, religiosidade, pertencimento familiar e vida comunitária. Na diáspora, especialmente no Brasil, esses rituais ganharam novos significados: deixaram de ser apenas formas de lembrar os mortos e tornaram-se também maneiras de preservar identidade, reconstruir pertencimento e transmitir uma herança cultural através de gerações e oceanos.
Uma festa sobre retorno e memória
O O-bon é celebrado em diferentes datas conforme a região, normalmente em meados de julho ou de agosto. Em muitas partes do Japão, o período entre 13 e 16 de agosto é associado ao retorno simbólico dos espíritos ancestrais às casas de suas famílias. Túmulos são visitados e limpos, oferendas são preparadas e lanternas ou fogueiras podem marcar a chegada e a despedida dos antepassados. O governo japonês descreve o Bon como um costume anual de acolher, entreter e depois acompanhar de volta os espíritos daqueles que morreram.
Essa tradição possui raízes budistas, mas ao longo do tempo incorporou práticas locais de culto aos ancestrais e costumes regionais. Por isso, o O-bon não é uma cerimônia uniforme nem necessariamente vivido por todos como prática estritamente religiosa. Para algumas famílias, é um ritual espiritual; para outras, uma ocasião de reencontro familiar e retorno à terra natal.
Bon Odori: quando lembrar também significa dançar
Uma das manifestações mais conhecidas do período é o Bon Odori, dança comunitária realizada em praças, ruas e templos. Suas raízes são associadas ao Nembutsu Odori, combinação de canto budista e dança que remonta à Idade Média japonesa. Segundo o pesquisador de dança tradicional Bijo Ageha, historicamente a dança servia para receber e consolar os mortos, criando simbolicamente um espaço em que vivos e ancestrais pudessem compartilhar a celebração.
Hoje, o Bon Odori pode misturar músicas tradicionais, canções populares e adaptações contemporâneas. Essa transformação não significa necessariamente perda de autenticidade; mostra justamente como tradições sobrevivem quando conseguem se adaptar.
A dança em círculo também possui uma força simbólica particular: não há necessariamente espectadores de um lado e artistas do outro. Crianças, idosos, visitantes e pessoas sem experiência podem entrar no círculo. O ritual de memória torna-se, assim, experiência de comunidade.
Da imigração japonesa ao Brasil nikkei
Esse sentido de pertencimento ganhou outra dimensão quando japoneses começaram a migrar em grande escala. No Brasil, a imigração japonesa organizada começou em 1908, com a chegada do navio Kasato Maru. Ao longo das décadas seguintes, famílias japonesas estabeleceram-se principalmente em São Paulo e no Paraná, criando associações, escolas, templos, jornais e redes comunitárias.
O Brasil passou a abrigar a maior população de origem japonesa fora do Japão. Nessa diáspora, práticas como o Bon Odori deixaram de existir apenas como ritual transplantado e foram progressivamente transformadas pela sociedade brasileira.
Em Londrina, por exemplo, antigos integrantes do templo budista Nishi Hongwanji criaram no início dos anos 2000 o Grupo Hikari para preservar e ensinar o Bon Odori. Segundo o projeto Discover Nikkei, a tradição havia sido trazida pelos próprios imigrantes e utilizada em cerimônias de reverência aos antepassados; décadas depois, tornou-se também instrumento de revitalização cultural entre gerações mais jovens.
Ser nikkei não significa simplesmente “ser japonês fora do Japão”
A experiência da diáspora também mostra que identidade cultural não é uma herança imóvel. Nikkei costuma designar japoneses emigrados e seus descendentes, mas essas pessoas podem possuir relações muito diferentes com língua, religião, costumes e nacionalidade.
Descendentes de terceira ou quarta geração podem não falar japonês, nunca ter vivido no Japão e ainda assim reconhecer no Bon Odori, na culinária, nas histórias familiares ou nos rituais ancestrais uma ligação importante com sua história.
Ao mesmo tempo, essa identidade nem sempre foi motivo de orgulho. Relatos históricos mostram que, durante décadas, descendentes japoneses no Brasil enfrentaram estereótipos raciais e pressões de assimilação. Alguns jovens Nissei e Sansei chegaram a distanciar-se de atividades como taiko e Bon Odori por receio de serem identificados como “japoneses” em uma sociedade que os tratava como estrangeiros mesmo quando haviam nascido no Brasil.
A recuperação dessas práticas pelas gerações posteriores revela, portanto, algo mais profundo do que simples nostalgia: transformar uma característica anteriormente utilizada para marcar diferença em motivo de pertencimento.
Migração também produz identidades que voltam a viajar
O movimento não ocorreu apenas do Japão para o Brasil. A partir da década de 1980, muitos brasileiros descendentes de japoneses migraram para o Japão como dekasseguis, criando comunidades brasileiras em cidades industriais japonesas.
Esse movimento produziu uma identidade ainda mais complexa. Uma pessoa pode chegar ao Japão imaginando que finalmente estará no país de seus antepassados e descobrir que ali é percebida antes como brasileira. Em texto publicado em 2026, a brasileira nikkei Janina Tiemi Enomoto descreve justamente essa experiência de retornar ao Japão já adulta e refletir simultaneamente sobre a importância de preservar os vínculos com o Japão e a própria identidade brasileira entre jovens nikkeis.
A diáspora, portanto, não cria apenas uma ponte entre dois países. Ela produz identidades que podem ser brasileiras e japonesas ao mesmo tempo, ou nenhuma dessas categorias de maneira simples.
Tradição preservada justamente porque mudou
Eventos de Bon Odori realizados no Brasil ajudam a enxergar essa transformação. Há festas em que senhoras de primeira e segunda geração dançam de yukata ao lado de jovens brasileiros sem ascendência japonesa; músicas tradicionais convivem com repertório moderno e barracas vendem pratos japoneses ao lado de comida brasileira e latino-americana.
É justamente aí que tradição e integração deixam de ser opostos.
Preservar cultura não exige congelá-la como se estivesse em um museu, e integrar-se não deveria significar abandonar línguas, memórias ou costumes familiares. O próprio Bon Odori mostra como uma prática pode atravessar gerações, religiões e fronteiras sem permanecer idêntica.
Memória também é pertencimento
O O-bon possui uma dimensão íntima: recordar aqueles que morreram. Mas, numa comunidade migrante, lembrar os antepassados também significa lembrar de onde uma família veio, por que migrou e como reconstruiu sua vida.
Isso transforma memória em patrimônio cultural. Fotografias, templos, cemitérios, festivais, histórias familiares e danças tornam-se formas de transmitir experiências que documentos oficiais dificilmente conseguem guardar por inteiro.
Em sociedades cada vez mais marcadas pela migração, essa experiência possui uma dimensão política importante. Integração não precisa significar assimilação. Uma pessoa pode participar plenamente de uma nova sociedade sem apagar as referências culturais que herdou.
Talvez seja justamente isso que o O-bon represente para muitas comunidades nikkeis: os antepassados pertencem ao passado, mas a memória deles continua participando da construção do presente. A tradição atravessou o Pacífico, tornou-se brasileira, voltou ao Japão com os dekasseguis e continua mudando de significado a cada geração. Nesse percurso, mostra que identidade cultural não é uma raiz presa a um único território, mas uma memória capaz de viajar com as pessoas.
Referências
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ENOMOTO, Janina Tiemi. Has my perspective on being of Japanese descent changed after coming to Japan as an adult? Discover Nikkei, 8 jul. 2026. Disponível em:
https://discovernikkei.org/en/journal/2026/7/8/ser-nikkei/
Acesso em: 16 ago. 2026.
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https://discovernikkei.org/pt/journal/2015/11/11/eventos-tradicionais-japoneses/
Acesso em: 16 ago. 2026.










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