{"id":1786,"date":"2026-07-26T15:49:00","date_gmt":"2026-07-26T18:49:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/?p=1786"},"modified":"2026-08-14T13:26:36","modified_gmt":"2026-08-14T16:26:36","slug":"racismo-estrutural-e-colonialidade-na-formacao-da-ordem-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/desenvolvimento-global\/racismo-estrutural-e-colonialidade-na-formacao-da-ordem-internacional\/","title":{"rendered":"Racismo estrutural e colonialidade na forma\u00e7\u00e3o da ordem internacional"},"content":{"rendered":"<h1><strong>Racismo estrutural e colonialidade na forma\u00e7\u00e3o da ordem internacional<\/strong><\/h1>\n<p><em>Racismo estrutural n\u00e3o \u00e9 apenas uma soma de atitudes individuais. Ele aparece quando institui\u00e7\u00f5es, regras econ\u00f4micas, fronteiras, sistemas de conhecimento e hierarquias internacionais continuam produzindo desigualdades raciais mesmo sem declarar abertamente uma inten\u00e7\u00e3o racista. Nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, essa discuss\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel porque a ordem mundial moderna foi formada junto com colonialismo, escravid\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios e classifica\u00e7\u00e3o racial de povos. Falar de colonialidade \u00e9 reconhecer que o fim formal dos imp\u00e9rios coloniais n\u00e3o eliminou as estruturas de poder que organizaram o mundo entre centro e periferia, civiliza\u00e7\u00e3o e atraso, humanidade plena e humanidade subordinada.<\/em><\/p>\n<h2>Racismo como estrutura global<\/h2>\n<p>Durante s\u00e9culos, a expans\u00e3o europeia justificou domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, extra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e viol\u00eancia em nome de miss\u00e3o civilizat\u00f3ria, religi\u00e3o, ci\u00eancia racial e progresso. Povos africanos, ind\u00edgenas, asi\u00e1ticos e afrodescendentes foram colocados em posi\u00e7\u00f5es inferiores dentro de uma hierarquia global que definia quem podia governar, produzir conhecimento, possuir terras e circular livremente.<\/p>\n<p>Esse passado n\u00e3o desapareceu com a independ\u00eancia formal das col\u00f4nias. Ele permanece em padr\u00f5es de com\u00e9rcio, d\u00edvida externa, controle tecnol\u00f3gico, desigualdade no acesso a vacinas, pol\u00edticas migrat\u00f3rias seletivas e baixa representa\u00e7\u00e3o do Sul Global em institui\u00e7\u00f5es internacionais. A colonialidade, conceito trabalhado por autores latino-americanos como An\u00edbal Quijano, ajuda a nomear justamente essa perman\u00eancia: a continuidade de formas coloniais de poder depois do fim jur\u00eddico do colonialismo.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o e Programa de A\u00e7\u00e3o de Durban, adotada em 2001, reconhece que escravid\u00e3o, tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de pessoas escravizadas, colonialismo e apartheid produziram consequ\u00eancias duradouras e est\u00e3o entre as causas profundas de desigualdades contempor\u00e2neas. Isso desloca o debate do plano moral para o plano pol\u00edtico: combater racismo exige enfrentar institui\u00e7\u00f5es, mem\u00f3ria hist\u00f3rica, repara\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de poder.<\/p>\n<h2>A hierarquia racial das fronteiras<\/h2>\n<p>As pol\u00edticas migrat\u00f3rias mostram como a ordem internacional continua racializada. Passaportes n\u00e3o t\u00eam o mesmo valor. Pessoas de pa\u00edses ricos circulam com muito mais facilidade, enquanto cidad\u00e3os do Sul Global enfrentam vistos, suspeita permanente, controles biom\u00e9tricos, deten\u00e7\u00f5es e risco de deporta\u00e7\u00e3o. A fronteira funciona como filtro econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m como filtro racial e colonial.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica aparece quando refugiados s\u00e3o tratados de forma diferente conforme nacionalidade, religi\u00e3o ou cor da pele. Tamb\u00e9m aparece quando profissionais altamente qualificados do Sul Global s\u00e3o aceitos como m\u00e3o de obra necess\u00e1ria, mas suas comunidades s\u00e3o vistas como problema cultural. O migrante \u00e9 desejado como trabalhador e rejeitado como sujeito pol\u00edtico. Essa contradi\u00e7\u00e3o revela que o racismo estrutural n\u00e3o depende apenas de insultos expl\u00edcitos; ele opera por meio de regras aparentemente neutras.<\/p>\n<h2>Conhecimento, m\u00eddia e poder de narrar<\/h2>\n<p>A colonialidade tamb\u00e9m est\u00e1 presente na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Universidades, centros de pesquisa, editoras, think tanks e grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o do Norte Global continuam tendo enorme poder para definir quais crises importam, quais autores s\u00e3o citados, quais conflitos recebem aten\u00e7\u00e3o e quais popula\u00e7\u00f5es aparecem apenas como v\u00edtimas, amea\u00e7a ou atraso.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa rejeitar todo conhecimento produzido no Norte, mas questionar sua posi\u00e7\u00e3o dominante. Durante muito tempo, teorias internacionais apresentaram a experi\u00eancia europeia como modelo universal de Estado, soberania, democracia e desenvolvimento, enquanto outras experi\u00eancias foram tratadas como exce\u00e7\u00f5es ou objetos de estudo. Uma perspectiva decolonial pergunta quem fala, de onde fala e quais hist\u00f3rias foram silenciadas para que uma narrativa parecesse universal.<\/p>\n<h2>Repara\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas passado<\/h2>\n<p>O debate sobre repara\u00e7\u00f5es por escravid\u00e3o e colonialismo costuma gerar resist\u00eancia porque muitos Estados preferem transformar o passado em mem\u00f3ria simb\u00f3lica sem consequ\u00eancias materiais. Mas repara\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa apenas indeniza\u00e7\u00e3o individual. Pode envolver reconhecimento hist\u00f3rico, devolu\u00e7\u00e3o de bens culturais, reforma educacional, combate \u00e0 desigualdade racial, financiamento para desenvolvimento, revis\u00e3o de pr\u00e1ticas policiais e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de comunidades afetadas.<\/p>\n<p>A ONU tem refor\u00e7ado que racismo, xenofobia e discrimina\u00e7\u00e3o seguem presentes em sociedades de todas as regi\u00f5es. <strong>O Dia Internacional para a Elimina\u00e7\u00e3o da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial<\/strong>, lembrado em 21 de mar\u00e7o, nasceu da mem\u00f3ria do massacre de Sharpeville, na \u00c1frica do Sul, quando manifestantes contra o apartheid foram mortos pela pol\u00edcia em 1960. A data lembra que o racismo \u00e9 uma estrutura de Estado, n\u00e3o apenas um preconceito social.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1788 alignleft\" src=\"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg.jpg\" alt=\"\" width=\"166\" height=\"166\" srcset=\"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg.jpg 800w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-300x300.jpg 300w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-150x150.jpg 150w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-768x768.jpg 768w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-440x440.jpg 440w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-600x600.jpg 600w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/sg-100x100.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 166px) 100vw, 166px\" \/><\/p>\n<blockquote style=\"padding-left: 40px;\">\n<p style=\"padding-left: 40px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><em>&#8220;The ancient poison of racism is alive and kicking in every community, society, country and region of the world&#8230; <\/em><em>The antidote is unity and action.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><strong><small>UN Secretary-General Ant\u00f3nio Guterres<\/small><\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Uma ordem internacional ainda seletiva<\/h2>\n<p>A seletividade aparece tamb\u00e9m no modo como o Direito Internacional \u00e9 aplicado. Algumas viola\u00e7\u00f5es recebem san\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, tribunais, cobertura midi\u00e1tica e isolamento diplom\u00e1tico. Outras s\u00e3o relativizadas quando envolvem aliados estrat\u00e9gicos, interesses econ\u00f4micos ou pot\u00eancias ocidentais. Essa diferen\u00e7a de tratamento alimenta a percep\u00e7\u00e3o de que a ordem internacional fala em universalidade, mas pratica hierarquia.<\/p>\n<p>Por isso, combater racismo estrutural na pol\u00edtica internacional exige mais do que diversidade em confer\u00eancias. Exige reforma das institui\u00e7\u00f5es multilaterais, democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento, justi\u00e7a clim\u00e1tica, financiamento ao desenvolvimento, enfrentamento da d\u00edvida, prote\u00e7\u00e3o de migrantes e reconhecimento das continuidades coloniais nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O racismo estrutural n\u00e3o organiza apenas sociedades nacionais; ele tamb\u00e9m atravessa a arquitetura do mundo. A colonialidade permanece quando alguns pa\u00edses continuam sendo vistos como produtores de crise, m\u00e3o de obra barata ou recursos naturais, enquanto outros se apresentam como \u00e1rbitros da civiliza\u00e7\u00e3o, dos direitos e da democracia. Uma ordem internacional verdadeiramente antirracista n\u00e3o ser\u00e1 constru\u00edda apenas com declara\u00e7\u00f5es. Ela exigir\u00e1 mem\u00f3ria, repara\u00e7\u00e3o, redistribui\u00e7\u00e3o de poder e escuta real das vozes que foram historicamente colocadas \u00e0 margem.<\/p>\n<h2>Fontes e refer\u00eancias<\/h2>\n<p><strong>&#8211; United Nations &#8211; International Day for the Elimination of Racial Discrimination. <\/strong>Link: https:\/\/www.un.org\/en\/observances\/end-racism-day<\/p>\n<p><strong>&#8211; United Nations &#8211; Durban Declaration and Programme of Action. <\/strong>Link: https:\/\/www.un.org\/en\/fight-racism\/background\/durban-declaration-and-programme-of-action<\/p>\n<p><strong>&#8211; OHCHR &#8211; International Convention on the Elimination of All Forms of Racial Discrimination. <\/strong>Link: https:\/\/www.ohchr.org\/en\/instruments-mechanisms\/instruments\/international-convention-elimination-all-forms-racial<\/p>\n<p><strong>&#8211; OHCHR &#8211; Working Group of Experts on People of African Descent. <\/strong>Link: https:\/\/www.ohchr.org\/en\/special-procedures\/wg-african-descent<\/p>\n<p><strong>&#8211; UNESCO &#8211; Breaking free from racial representations inherited from slavery. <\/strong>Link: https:\/\/www.unesco.org\/en\/articles\/breaking-free-racial-representations-inherited-slavery<\/p>\n<p><strong>&#8211; United Nations &#8211; Permanent Forum on People of African Descent <\/strong>Link: https:\/\/www.ohchr.org\/en\/permanent-forum-people-african-descent<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Racismo estrutural e colonialidade na forma\u00e7\u00e3o da ordem internacional Racismo estrutural n\u00e3o \u00e9 apenas uma soma de atitudes individuais. 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