{"id":116,"date":"2026-03-24T12:26:57","date_gmt":"2026-03-24T15:26:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/?p=116"},"modified":"2026-04-05T04:04:28","modified_gmt":"2026-04-05T07:04:28","slug":"gaza-e-os-limites-da-onu-por-que-a-diplomacia-internacional-falha-diante-do-conflito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/desenvolvimento-global\/gaza-e-os-limites-da-onu-por-que-a-diplomacia-internacional-falha-diante-do-conflito\/","title":{"rendered":"Gaza e os limites da ONU: por que a diplomacia internacional falha diante do conflito"},"content":{"rendered":"<h2 data-section-id=\"1qdvyvj\" data-start=\"313\" data-end=\"346\">Entre o direito e a pol\u00edtica<\/h2>\n<p data-start=\"348\" data-end=\"646\">A prote\u00e7\u00e3o internacional dos direitos humanos constitui um dos pilares da ordem global contempor\u00e2nea. Desde a cria\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1945, a promessa de um sistema multilateral capaz de prevenir atrocidades e proteger civis tornou-se parte central da arquitetura internacional.<\/p>\n<p data-start=\"648\" data-end=\"832\">No entanto, conflitos recentes \u2014 especialmente a guerra em Gaza \u2014 evidenciam um problema estrutural: a dist\u00e2ncia entre a normatividade do direito internacional e sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p data-start=\"834\" data-end=\"1156\">Essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova, mas tornou-se mais vis\u00edvel. A ONU mant\u00e9m um papel normativo essencial, mas sua capacidade de a\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada por fatores pol\u00edticos, especialmente pelo funcionamento do <strong>Conselho de Seguran\u00e7a<\/strong> e o uso do <strong>veto<\/strong> por grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p data-start=\"1158\" data-end=\"1255\"><strong>O resultado \u00e9 um sistema que produz normas universais, mas aplica essas normas de forma seletiva.<\/strong><\/p>\n<h2 data-section-id=\"5yt3j0\" data-start=\"1257\" data-end=\"1314\">Fundamentos: direitos humanos e a promessa universal<\/h2>\n<p data-start=\"1316\" data-end=\"1571\">A cria\u00e7\u00e3o da ONU e da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, em 1948, representou uma resposta direta \u00e0s atrocidades da Segunda Guerra Mundial. A ideia central era simples, mas ambiciosa: estabelecer padr\u00f5es universais de prote\u00e7\u00e3o da dignidade humana.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"ko99kt\" data-start=\"1922\" data-end=\"1970\">Gaza: um teste para o sistema internacional<\/h2>\n<p data-start=\"1972\" data-end=\"2099\">O conflito em Gaza tornou-se um dos maiores testes contempor\u00e2neos para o sistema internacional de prote\u00e7\u00e3o de direitos humanos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Drone Footage Captures Scale Of Destruction From Israeli Strikes In Gaza\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kJk8xeXq7zQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p data-start=\"2101\" data-end=\"2309\">Dados recentes do Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA) indicam que mais de 72 mil palestinos foram mortos at\u00e9 2025, incluindo milhares de mulheres e crian\u00e7as:<br data-start=\"2281\" data-end=\"2284\" \/><a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/www.ochaopt.org\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"2284\" data-end=\"2307\">https:\/\/www.ochaopt.org<\/a><\/p>\n<p data-start=\"2101\" data-end=\"2309\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-637 size-large\" title=\"https:\/\/www.ochaopt.org\/\" src=\"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI-1024x594.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"594\" srcset=\"https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI-1024x594.jpg 1024w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI-300x174.jpg 300w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI-768x445.jpg 768w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI-1536x891.jpg 1536w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI-1080x626.jpg 1080w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI-600x348.jpg 600w, https:\/\/blog.tatianamendonca.com\/br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/World_Health_Organization_Gaza_Power_BI.jpg 1581w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p data-start=\"2311\" data-end=\"2478\">A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade tamb\u00e9m aponta n\u00fameros semelhantes, confirmando a escala da crise humanit\u00e1ria:<br data-start=\"2419\" data-end=\"2422\" \/><a class=\"decorated-link cursor-pointer\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"2422\" data-end=\"2476\">https:\/\/www.who.int\/emergencies\/situations\/gaza-crisis<\/a><\/p>\n<p data-start=\"2480\" data-end=\"2601\">Al\u00e9m disso, cerca de 90% da popula\u00e7\u00e3o foi deslocada internamente, refletindo um colapso estrutural das condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Animated: Nowhere to run for Palestinians in Gaza\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yy3ATmzyeIY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p data-start=\"2603\" data-end=\"2786\">Relat\u00f3rios do Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos indicam ainda a destrui\u00e7\u00e3o massiva de infraestrutura civil, incluindo escolas, hospitais e sistemas de \u00e1gua.<\/p>\n<p data-start=\"2788\" data-end=\"2899\">Esse cen\u00e1rio levanta quest\u00f5es jur\u00eddicas graves \u2014 incluindo acusa\u00e7\u00f5es de genoc\u00eddio e crimes contra a humanidade.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"1fjv8rf\" data-start=\"2901\" data-end=\"2953\">Genoc\u00eddio, direito internacional e controv\u00e9rsia<\/h2>\n<p data-start=\"162\" data-end=\"763\">Relat\u00f3rios recentes da relatora especial da ONU, Francesca Albanese, apontam que a situa\u00e7\u00e3o em Gaza deve ser analisada dentro de um quadro mais amplo de destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da popula\u00e7\u00e3o palestina. Em seu relat\u00f3rio <strong data-start=\"379\" data-end=\"420\">\u201cGenocide as Colonial Erasure\u201d (2024)<\/strong>, Albanese afirma que h\u00e1 \u201cmotivos razo\u00e1veis para acreditar\u201d que atos proibidos pela Conven\u00e7\u00e3o do Genoc\u00eddio est\u00e3o sendo cometidos e analisa o fen\u00f4meno como parte de um processo de apagamento estrutural:<br data-start=\"621\" data-end=\"624\" \/><a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/www.un.org\/unispal\/document\/genocide-as-colonial-erasure-report-francesca-albanese-01oct24\/\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"624\" data-end=\"723\">https:\/\/www.un.org\/unispal\/document\/genocide-as-colonial-erasure-report-francesca-albanese-01oct24\/<\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;End the Genocide! It is not a war!&quot; Francesca Albanese\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ec80Rn5kdgI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p data-start=\"765\" data-end=\"1041\">O relat\u00f3rio, apresentado \u00e0 Assembleia Geral da ONU, sustenta que a viol\u00eancia em Gaza deve ser compreendida dentro de um contexto hist\u00f3rico mais amplo de deslocamento e elimina\u00e7\u00e3o populacional, e n\u00e3o apenas como resposta militar pontual.<\/p>\n<p data-start=\"1043\" data-end=\"1484\">Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 aprofundada em relat\u00f3rio posterior, <strong data-start=\"1100\" data-end=\"1146\">\u201cGaza Genocide: A Collective Crime\u201d (2025)<\/strong>, no qual Albanese afirma que a destrui\u00e7\u00e3o em Gaza constitui um \u201ccrime coletivo\u201d sustentado tamb\u00e9m por apoio externo \u2014 incluindo assist\u00eancia militar, econ\u00f4mica e diplom\u00e1tica de outros Estados:<br data-start=\"1338\" data-end=\"1341\" \/><a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/www.un.org\/unispal\/document\/special-rapporteur-report-gaza-genocide-a-collective-crime-20oct25\/\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"1341\" data-end=\"1444\">https:\/\/www.un.org\/unispal\/document\/special-rapporteur-report-gaza-genocide-a-collective-crime-20oct25\/<\/a><\/p>\n<p data-start=\"1486\" data-end=\"1707\">Segundo o documento, esse apoio internacional contribui para a continuidade das viola\u00e7\u00f5es e para a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de vida incompat\u00edveis com a sobreviv\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p data-start=\"86\" data-end=\"425\">Em 23 de mar\u00e7o de 2026, apresentou ao Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, seu relat\u00f3rio sobre a alegada tortura sistem\u00e1tica de palestinos por parte de Israel, apontada como um elemento central de um processo cont\u00ednuo de genoc\u00eddio nos Territ\u00f3rios Palestinos Ocupados. Durante a apresenta\u00e7\u00e3o, Albanese compartilhou relatos contundentes de sobreviventes, que descrevem espancamentos, abusos sexuais, estupros, priva\u00e7\u00e3o de alimentos e pr\u00e1ticas de desumaniza\u00e7\u00e3o em centros de deten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"FULL SPEECH: Francesca Albanese Details Israel&#039;s Systematic Torture In Genocide Report |  AC1F\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fpfDQFZfono?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p data-start=\"2185\" data-end=\"2761\">No campo acad\u00eamico, a <strong>International Association of Genocide Scholars (IAGS)<\/strong> \u2014 uma das principais organiza\u00e7\u00f5es internacionais dedicadas ao estudo do genoc\u00eddio \u2014 tamb\u00e9m se posicionou sobre o tema. Em 2025, a associa\u00e7\u00e3o afirmou que h\u00e1 evid\u00eancias consistentes de que as a\u00e7\u00f5es em Gaza atendem aos crit\u00e9rios da Conven\u00e7\u00e3o de 1948, incluindo mortes em massa, destrui\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de vida e deslocamento for\u00e7ado da popula\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>https:\/\/genocidescholars.org\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IAGS-Resolution-on-Gaza-FINAL.pdf<\/p>\n<p data-start=\"2763\" data-end=\"3082\">Esse posicionamento \u00e9 relevante porque reflete um consenso crescente entre especialistas na \u00e1rea, ainda que o tema permane\u00e7a altamente controverso no campo jur\u00eddico e pol\u00edtico internacional \u2014 especialmente porque a determina\u00e7\u00e3o formal de genoc\u00eddio depende de decis\u00f5es de tribunais como a Corte Internacional de Justi\u00e7a.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"xli1z8\" data-start=\"3750\" data-end=\"3796\">O Conselho de Seguran\u00e7a e o poder de veto<\/h2>\n<p data-start=\"3798\" data-end=\"3882\">O principal obst\u00e1culo \u00e0 atua\u00e7\u00e3o efetiva da ONU encontra-se no <strong>Conselho de Seguran\u00e7a<\/strong>.<\/p>\n<p data-start=\"3884\" data-end=\"4083\"><strong>Criado para garantir a paz internacional, o \u00f3rg\u00e3o reflete a estrutura de poder de 1945, com cinco membros permanentes \u2014 Estados Unidos, R\u00fassia, China, Fran\u00e7a e Reino Unido \u2014 dotados de poder de veto.<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"4085\" data-end=\"4290\">Dados da pr\u00f3pria ONU mostram que, entre 1946 e 2025, dezenas de resolu\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 Palestina foram bloqueadas, muitas delas por vetos dos Estados Unidos:<br data-start=\"4245\" data-end=\"4248\" \/><a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/research.un.org\/en\/docs\/sc\/quick\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"4248\" data-end=\"4288\">https:\/\/research.un.org\/en\/docs\/sc\/quick<\/a><\/p>\n<p data-start=\"4292\" data-end=\"4414\">Durante o conflito recente em Gaza, diversas resolu\u00e7\u00f5es de cessar-fogo foram vetadas, apesar de amplo apoio internacional.<\/p>\n<p data-start=\"4416\" data-end=\"4550\">Esse padr\u00e3o revela um problema estrutural: decis\u00f5es sobre prote\u00e7\u00e3o de civis s\u00e3o frequentemente subordinadas a interesses estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p data-start=\"4552\" data-end=\"4693\">Como argumentam Mearsheimer e Walt, a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos no Oriente M\u00e9dio est\u00e1 profundamente ligada a alian\u00e7as geopol\u00edticas.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"ftgima\" data-start=\"4793\" data-end=\"4846\">Responsabilidade de proteger \u2014 e a falha em agir<\/h2>\n<p data-start=\"4848\" data-end=\"5025\">A doutrina da Responsabilidade de Proteger (R2P), adotada pela ONU em 2005, estabelece que a comunidade internacional deve agir quando um Estado falha em proteger sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"5027\" data-end=\"5114\">No entanto, sua aplica\u00e7\u00e3o depende do Conselho de Seguran\u00e7a \u2014 o que limita sua efic\u00e1cia.<\/p>\n<p data-start=\"5116\" data-end=\"5260\">No caso de Gaza, apesar de resolu\u00e7\u00f5es da Assembleia Geral e do Conselho de Seguran\u00e7a pedirem cessar-fogo, essas medidas n\u00e3o foram implementadas.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"j4h7a8\" data-start=\"5412\" data-end=\"5462\">Responsabilidade internacional e cumplicidade<\/h2>\n<p data-start=\"5464\" data-end=\"5527\">O direito internacional tamb\u00e9m prev\u00ea responsabilidade indireta.<\/p>\n<p data-start=\"5529\" data-end=\"5668\">Segundo os Artigos sobre Responsabilidade do Estado (2001), um pa\u00eds pode ser responsabilizado por apoiar outro na pr\u00e1tica de atos il\u00edcitos.<\/p>\n<p data-start=\"5670\" data-end=\"5746\">Isso inclui fornecimento de armas, apoio financeiro e cobertura diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p data-start=\"5748\" data-end=\"5918\">Dados do Stockholm International Peace Research Institute mostram que mais de 60% das armas utilizadas por Israel t\u00eam origem nos Estados Unidos. Al\u00e9m dos Estados Unidos, outros pa\u00edses tamb\u00e9m desempenham papel relevante no fornecimento de armas, equipamentos militares e componentes para Israel. Dados recentes do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) indicam que, embora os EUA sejam respons\u00e1veis por cerca de <strong data-start=\"467\" data-end=\"515\">60% a 70% das importa\u00e7\u00f5es de armas de Israel<\/strong>, pa\u00edses europeus tamb\u00e9m participam dessa cadeia, ainda que em menor escala. A Alemanha, por exemplo, tornou-se o <strong data-start=\"629\" data-end=\"678\">segundo maior fornecedor de armas para Israel<\/strong>, respondendo por aproximadamente <strong data-start=\"712\" data-end=\"787\">30% das exporta\u00e7\u00f5es militares para o pa\u00eds em determinados anos recentes<\/strong>, incluindo sistemas navais e componentes de defesa: <a class=\"decorated-link\" href=\"https:\/\/www.sipri.org\/databases\/armstransfers\" target=\"_new\" rel=\"noopener\" data-start=\"840\" data-end=\"885\">https:\/\/www.sipri.org\/databases\/armstransfers<\/a>. Al\u00e9m disso, investiga\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas e relat\u00f3rios indicam que empresas em pa\u00edses como Reino Unido, Fran\u00e7a e It\u00e1lia fornecem componentes \u2014 como pe\u00e7as para aeronaves e sistemas eletr\u00f4nicos \u2014 integrados a cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o militar, muitas vezes via contratos indiretos ou coopera\u00e7\u00e3o industrial. No caso alem\u00e3o, o apoio militar \u00e9 frequentemente justificado por raz\u00f5es hist\u00f3ricas e pol\u00edticas, mas tem sido objeto de crescente debate interno, especialmente diante das implica\u00e7\u00f5es legais relacionadas ao direito internacional humanit\u00e1rio e \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es de n\u00e3o contribuir para poss\u00edveis viola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"1hs6c1r\" data-start=\"6082\" data-end=\"6133\">Alemanha, mem\u00f3ria hist\u00f3rica e pol\u00edtica externa<\/h2>\n<p data-start=\"6135\" data-end=\"6187\">A Alemanha ocupa um papel particular nesse contexto. Sua pol\u00edtica externa \u00e9 fortemente influenciada pela mem\u00f3ria do Holocausto, o que se traduz no princ\u00edpio da Staatsr\u00e4son \u2014 a ideia de que a seguran\u00e7a de Israel \u00e9 parte da raz\u00e3o de Estado alem\u00e3. Esse princ\u00edpio foi afirmado publicamente por Angela Merkel em 2008.<\/p>\n<p data-start=\"6451\" data-end=\"6562\">No entanto, cr\u00edticos apontam que essa posi\u00e7\u00e3o pode limitar a capacidade de reconhecer viola\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"uf5mqq\" data-start=\"6682\" data-end=\"6724\">A ONU: entre legitimidade e limita\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p data-start=\"6726\" data-end=\"6817\">A ONU continua sendo o principal espa\u00e7o institucional para a promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, funcionando como f\u00f3rum central de produ\u00e7\u00e3o normativa, monitoramento e den\u00fancia de viola\u00e7\u00f5es. No entanto, sua capacidade de a\u00e7\u00e3o concreta depende do consenso entre Estados, o que limita sua efic\u00e1cia, especialmente em contextos de conflito envolvendo interesses estrat\u00e9gicos de grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p data-start=\"6726\" data-end=\"6817\">Na pr\u00e1tica, decis\u00f5es mais robustas \u2014 como san\u00e7\u00f5es, interven\u00e7\u00f5es ou medidas de prote\u00e7\u00e3o \u2014 dependem do Conselho de Seguran\u00e7a, onde o poder de veto frequentemente bloqueia iniciativas, mesmo diante de crises humanit\u00e1rias graves. Esse arranjo institucional revela uma tens\u00e3o estrutural: a ONU \u00e9 simultaneamente um instrumento de universaliza\u00e7\u00e3o de direitos e um reflexo das assimetrias de poder do sistema internacional.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"k2gqv3\" data-start=\"7173\" data-end=\"7201\">Perspectivas de reforma<\/h2>\n<p data-start=\"7203\" data-end=\"7302\">Diante desse cen\u00e1rio, diversos especialistas defendem reformas estruturais no sistema multilateral.<\/p>\n<p data-start=\"7304\" data-end=\"7345\">Entre as propostas mais discutidas est\u00e3o:<\/p>\n<ul data-start=\"7347\" data-end=\"7551\">\n<li data-section-id=\"dhz5go\" data-start=\"7347\" data-end=\"7401\">limita\u00e7\u00e3o do poder de veto em casos de atrocidades<\/li>\n<li data-section-id=\"1h3d749\" data-start=\"7402\" data-end=\"7454\">fortalecimento da Corte Internacional de Justi\u00e7a<\/li>\n<li data-section-id=\"r1mcaq\" data-start=\"7455\" data-end=\"7499\">amplia\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o do Sul Global<\/li>\n<li data-section-id=\"8qsiwy\" data-start=\"7500\" data-end=\"7551\">cria\u00e7\u00e3o de mecanismos de execu\u00e7\u00e3o mais eficazes<\/li>\n<\/ul>\n<p data-start=\"7553\" data-end=\"7616\">Essas medidas buscam reduzir a dist\u00e2ncia entre norma e pr\u00e1tica.<\/p>\n<h2 data-section-id=\"1epjn17\" data-start=\"7618\" data-end=\"7638\">An\u00e1lise cr\u00edtica<\/h2>\n<p data-start=\"7640\" data-end=\"7714\">O caso de Gaza exp\u00f5e uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental do sistema internacional. A ONU permanece essencial como espa\u00e7o normativo, mas sua capacidade de a\u00e7\u00e3o \u00e9 limitada por estruturas de poder que refletem interesses geopol\u00edticos.<\/p>\n<p data-start=\"7866\" data-end=\"8014\">O sistema multilateral enfrenta um dilema central: <strong>conciliar \u00e9tica e poder<\/strong>.<\/p>\n<p data-start=\"8016\" data-end=\"8101\">Enquanto isso n\u00e3o ocorrer, a prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos continuar\u00e1 sendo seletiva. Nesse contexto, a quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 apenas jur\u00eddica:<\/p>\n<p data-start=\"8161\" data-end=\"8282\"><strong data-start=\"8161\" data-end=\"8282\">\u00c9 poss\u00edvel um sistema internacional verdadeiramente universal em um mundo ainda estruturado por assimetrias de poder?<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o direito e a pol\u00edtica A prote\u00e7\u00e3o internacional dos direitos humanos constitui um dos pilares da ordem global contempor\u00e2nea. Desde a cria\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em 1945, a promessa de um sistema multilateral capaz de prevenir atrocidades e proteger civis tornou-se parte central da arquitetura internacional. 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